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Trinta anos e… Depressão

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Cecília Meireles virou escritora com 18 anos, mas o cara de trinta acha que vai fazer 81 e não vai chegar lá. Tinha aquele papo antigo de que todo homem tinha que ter filho, plantar uma árvore e escrever um livro. A maioria dos meus amigos acha mais fácil procurar uma muda do que os outros dois desafios. Vai vendo…

Tem a história de amor do casal que se conheceu adolescentes, se casou, teve filhos e tá aí, lindão, pra contar história. Digo, fazer inveja mesmo. Tem trintão que já contabiliza um divórcio pra cada década de vida. E tem pesadelos com um novo casamento terminando em um quarto divórcio com o juiz imitando o Galvão Bueno. É tetra! É tetra!

Aos trinta anos a gente só sabe que nada sabe. Desistir nunca, retroceder jamais, mas é devagar, devagar e devagarinho. Não somos mais tão jovens, mas ainda dá tempo de fazer muita coisa. Nem que você comece pela árvore. Ou pelo divórcio.

Top 30 anos não tem playlist que baste

A playlist de um trintão é tão confusa quanto a América Central. Alguns de nós dançaram lambadaê e dançaram lambada lá (lá onde, ê… Beto Barbosa?) e tem aqueles que achavam que melhor era ser criança com o Trem da Alegria. Achavam tanto que vão no show do Luciano até hoje. Pai, afasta de mim esse cálice.

Chico Buarque sim porque os de trinta anos não têm essa de só ouvir a música a partir dos anos 80. Crescemos com o vinil, amadurecemos com o CD e tomamos gosto pelo MP3. Tem quem só use um ou todos, mas trintão bom é aquele que conhece a música que não tem idade pra conhecer. Todo trintencentista que se respeite tem uma lista de shows que só não foi porque não era nascido ou a mãe não deixava. E mãe é mãe. Paca é paca (desculpem, meninas).

Todo cara de trinta anos teve uma fase Legião Urbana. Os piores são os que renegam a fase como tem adulto que parece que nunca foi criança e achava a Madonna gostosa pra caramba porque nessa idade não podia falar palavrão caralho. Você também achava o Michael Jackson o cara mais incrível do mundo, dançou Step by Step em algum Ray Fay ou festa julina da vida e tinha certeza que o Guns ia durar pra sempre. Ou pior, apostou no Nirvana.

O cara de trinta e poucos anos não reclama muito do Jorge Vercilo porque a gente sabe o que é ligar a rádio e ter que escolher entre o É o Tcham, Gerasamba ou Soweto. Tudo bem pra você se a gente ouve Ana Carolina sem parar? Dureza era a Rosana Canibal que comia deusas all night long nas estações. Não é que a gente se contenta com pouco. Sabemos como somos felizes apesar do Michel Teló.

Apesar de tudo, o cara de trinta ainda tem muita esperança. Esperança que o B-52 ou a Cindy Lauper voltem ao Brasil algum dia. E não vale só ir em São Paulo.  Esperança que o Elvis continue na cova, mas que o Freddie Mercury reapareça vivinho da silva. Ou The Smiths. E que o MC Bob Run volte e ensine ao Benny como se faz. Tá escrito.

Uns trinta anos atrás

Caverna do Dragão - A Uni não era o demônio!

Todo mundo já deve ter recebido uma corrente de email que lista todas as coisas que as crianças tinham nos anos 80. O texto sempre se encerrava com uma mensagem edificante de que os trintões fomos os últimos a ter uma infância feliz. Cuméquié ?

Pergunte aos trintencistas da atualidade quantos cabelos não perderam tentando assistir o último capítulo de Caverna do Dragão que jamais existiu. Aquele em que a Uni era um diabo e tudo mais. Só o fato de alguém ter inventado uma história dessas já prova que a nossa felicidade infantil é mais superestimada do que a programação da TV da época. E os Smurfs, derrotaram o Gargamel de vez? O He-Man conseguiu vencer o Esqueleto antes de ficar branco*?

A nossa infância não foi sem traumas. Já existiam todas as imposições masculinas nos programas infantis com apresentadoras usando roupas que não queríamos ver em nossas irmãs. E a gente ainda tinha que dizer pra nossa mãe que não tinha problema. Era a antecipação de todos os conflitos que o time dos casados viria a passar, mas só que ninguém terminou casado com a Xuxa.

E ainda tinha uma ameaça bem pior que divórcio ou brigar com a mamãe:  mudar o canal pra ver o Bozo. SBT era só em caso de conferir se alguém passava aquele trote para o programa. O do tomate cru. Porque a gente era inocente, né?

Crianças que agora completam trinta anos passaram a vida inteira brincando de todos os desenhos animados que viam na TV. Agora que nos tornamos adultos a gente não faz mais essas coisas infantis. Vamos ao cinema ver tudo isso com pipoca e o (a) respectivo(a). “Você não tá muito velho pra ver filme de robozinho não ?” Velho nada. Depois a gente ainda vai no bar discutir se o Optimus Prime vencia ou não o Predador na porrada. Filosofia pura.

Diga a qualquer fã de Ben 10 que bom mesmo era o alienígena que cuidava do Benji. Essas crianças que curtem Max Steel não sabem como eram os perigos do He-Man, que enfrentava o Esqueleto, tinha uma irmã em outra dimensão e não conseguia ter um boneco que fosse articulado decentemente. E ainda virou sueco em um desenho que ninguém mais lembra. Só quem tem trinta anos.

Essas coisas aqui e ali foram criando uma frustração nos trintões de hoje? Bom, nós não vimos o Hank levar a Sheila para o parque como adolescentes normais. Os terroristas do Cobra nunca vão presos e até hoje ninguém entende muito bem porque o Seu Madruga não terminou com a Dona Clotilde. E o que houve com o mascote da Punky na série da TV, aquele bichinho que voava e fazoa magia com as orelhas? Será que a Vicky cresceu e virou uma mulher-robô?

Mas pergunte aos jovens de vinte e poucos e eles vão ter os seus dramas da cultura pop também. Toda criança teve.

Temos trinta anos e já devíamos saber que nossa infância não foi especial. Bom, talvez tenhamos sido as únicos crianças que deram um sentido ao pogobol. Não é pouco.  E quer saber? Iria fácil em um filme do Caverna do Dragão só para ver a Diana de biquini…

*Branco e loiro. E só falam no Michael Jackson foi injustiçado…

O Homem de Trinta Anos

Honoré de Balzac - autor de
O balzaquiano é um forte. Começa superando o fato de que “balzaquiano” é uma apropriação indevida de balzaquiana, termo cunhado exclusivamente para o sexo feminino a partir do sobrenome de Honoré de Balzac, autor de “A Mulher de Trinta Anos” (imagem). Talvez mais do que forte, os balzaquianos sejamos todos um pouco sem vergonha também.

Não é sem motivo. Ser desavergonhado permite aos trintões seguirmos descolados mesmo com menos cabelo ou mais barriga diante da lembrança ainda próxima de nossa aparência de vinte e poucos anos. Tem aqueles homens de trinta, verdadeiros traidores da sociedade, que melhoram com a passagem dos anos. Perdem peso, tiram o aparelho , vão para a academia… Mas um trintão de respeito jamais tentará ser tão jovem quanto aos vinte (até porque isso a gente deixa para quando completarmos quarenta).

Trinta e poucos anos é uma idade belíssima hoje em dia. A gente não lembra bem do Paolo Rossi, mas tem direitinho na cabeça a Copa de 94 e a de 2002. Se os mais velhos têm bastante lembrança ruim para esquecer, nosso papo com os mais jovens tem muito mais história do que mesa de bar. “Fenômeno era o baixinho. O Romário era mais craque que o Ronaldo!” , “Cafu coisa nenhuma. Lateral tem que cruzar que nem o Jorginho fazia” e por aí vai…

Se o objetivo for conquistar alguma vintona intelectual a coisa melhora. Só os trintões conseguem explicar o que era cruzeiro, cruzado novo e fingir que ainda lembram o que veio primeiro sem parecer ridículo diante das mais jovens. O problema é se com trinta anos você quiser conquistar uma moça da mesma idade. Periga ela ficar pasma de você não lembrar quando caiu o Muro de Berlim e que o show que você gostaria de ir se tivesse uma máquina do tempo não seria o Rock in Rio de 1985. E não vale usar o Google: você ainda está muito novo pra isso.

Trinta anos. Rock in Rio, Diretas Já, AIDS – e um monte de gente boa que ela levou -, funk, pagode e axé. Um homem de trinta anos nunca vai admitir, mas lembra bem o que era a lambada também. Dizem que alguns até dançaram! Fortes e um pouco desavergonhados, sem dúvida.

Somos trintões sim. Com menos sabedoria que aqueles presunçosos dos 40 que acham que a nossa vida ainda não começou, mas com um tiquinho a mais de ousadia. Ou com menos energia que esses garotos de vinte, que mal saíram de suas fraldas, mas ganhamos na paciência. Ainda sopraremos muitas velas.