sociedade

Das saudades da Ditadura

ImageA corrupção de um governo de esquerda e a ascensão da classe mais “evil” do conservadorismo faz muita gente perder a vergonha em dizer que sente saudades da ditadura militar. Ditadura sim porque regime, assim como dieta é opcional. O governo militar foi à força, depondo presidente eleito democraticamente e tudo mais.

A maioria das pessoas que fala com nostalgia daquele tempo, não o viveu. Assim como eu. A diferença é que talvez tenha me informado um pouquinho melhor sobre o grau de atrocidades que vivemos naqueles tempos bárbaros. Próximo à minha casa em São Paulo, vivia um médico que eletrocutou mulheres pelos seios e homens pelos genitais porque recebia ordens, no melhor estilo de argumentação jurídica nazista. Vivia livre, leve e solto sem punições além do constrangimento de protestos à sua porta.

Trabalhei com uma mulher que fez reportagens sobre o período e ajudou a complementar meu conhecimento sobre tortura. Sempre ouvi que guardas usavam cassetete em mulheres em uma simulação de empalamento. Ela me contou que além disso, ratos mortos na genitália feminina eram prática comuns. E por aí vai. É esse o tipo de coisa que a ignorância faz algumas pessoas sentirem falta.

Assusta ver gente com tanto medo do diferente e com fobia tal do poder do outro de tomar uma decisão diferente que a sua que defende o retorno de alguém que decida por nós. Corrupto ou não, o governo que temos é o que merecemos. O que é muito melhor do que o que uma minoria merece.

A charge é de autoria do brilhante Carlos Latuff.

Do tempo que se amarrava pessoas em um poste

ImageSempre tenho o instinto de tentar procurar algo que ninguém comenta quando uma notícia domina as timelines alheias. Do caso bizarro e inadmissível da vítima  agredida e presa a um poste me chamou atenção o nome de quem denunciou: Yvonne Bezerra de Mello. Ela é artista plástica e ajudava as crianças na Candelária chacinadas anos atrás. Por sua luta com gente esquecida pela sociedade, foi retratada em um documentário de uma cineasta alemã intitulado Guerreira da Luz.

Não é de graça. Yvonne e sua luz lutaram por menores chacinados em tempos que até considerávamos mais bárbaros do que hoje. Muito tempo depois, precisa lidar com críticas dos reacionários em desenvolvimento por ter ajudado um ser humano ferido e preso sem autorização do Estado. Choca. “Quando divulguei as fotos na internet, muita gente veio dizer que ele é ladrão, que tinha que ser punido mesmo. Os furtos na região (do Flamengo) aumentaram muito, eu sei disso, mas não sei quem é o rapaz. Se houver cometido algum crime, quem deve prender é a polícia.”, disse. Choca mesmo. Embora alguns prefiram aplaudir.

Desses tempos em que se amarra pessoas em poste para os aplausos da Santa Inquisição 2.0 fica a perseverança de Yvonne, há décadas sem desistir do ser humano. É evidência  de que ainda resta alguma civilização em nós mesmo com a turba surda exigindo a legitimação da lei do Capitão Nascimento. Quem será o próximo a voltar para o saco? Ou para o poste?

Se redes sociais permitem que você leia e siga quem quiser, vou optar por prestar mais atenção no que ela diz ao invés do que alguns amigos meus falam. Desculpa, amigão, mas sua opinião é digna de qualquer membro do PFI (Partido Fascista da Internet). E que os marginais que prenderam o sujeito ao poste sejam severamente punidos. Assim como a vítima deve ser punida por qualquer crime que tenha ou venha a cometer. Mas pelo Estado e não por milícias.

Até lá, a gente tenta não desistir do ser humano também.

PS: Yvonne comanda o projeto Uerê, que ajuda crianças e comunidades carentes. A ONG aceita doações e trabalho de voluntários.