mãe

Noite de mãe

– A mamãe te ama.
– Eu também, mãe.

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As noites são sempre as piores. Dois tapas no braço e a busca pela veia. A seringa não causa mais dor, mas incomoda.

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Nunca se esqueceria do médico que comunicou o óbito. Lembrava o pediatra de Marcinho, mas tinha um jeito mais sisudo. Quando caminhou em sua direção seu primeiro pensamento foi algo como “acabou a brincadeira”. Acabavam-se todas.

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O ano é daqueles que desafiam as projeções do futuro, sem carros voadores ou viagens no tempo. Milagres apenas em projeções de imagens e drogas. Droga é o ápice da evolução da ciência.

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Aquela cena seria para sempre seu vídeo favorito. Vitinho correndo para a casa para contar como tinha sido a escola. Terminava se declarando de amor para o filho. O pai gravara tudo para projeções 3D. Nunca foram tão felizes.

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Esqueceu. Viu uma projeção que soava familiar, mas não lembrava quando. Sentiu alegria ao ver do que se tratava. Como era doce seu filho. Como era bom ter essa certeza que tinha ele no mundo. Enquanto pudesse, abraça-lo ou vê-lo. Ou esquecer.

 

Todos os primeiros beijos

Primeiro beijo do super-herói

Cada fase da vida tem um primeiro beijo diferente. O primeiro beijo da mamãe, ainda no parto. Formando um elo de amor para o resto da vida. Amor de mãe é muito mais forte que primeiro beijo. Você não vai amar a mulher que beijar seus lábios primeiro pelo resto da vida, mas talvez nunca mais esqueça dela. E certamente não lembra do beijinho que sua mãe te deu logo que te viu, mas vai amá-la pra sempre.

First kiss maternal: o mais forte que existe. Só pode perder para o correspondente paternal. Muito homem vai beijar outros homens por fraternidade. Mais ainda por libido, desejo e amor. Mas o beijo do pai é tipo aperto de mão entre amigos: coisa de homem. Papai ama você.

E tem o primeiro beijo de língua. Sortudos têm tudo junto: o de língua e o fim da boca virgem. Mas para a maioria primeiro é o estalinho com as primas ou amiguinhas da creche, depois a exploração às cegas da língua da(o) companheira(o). O beijo lascivo, nada inocente… Dali em diante, só o sexo vai ser novidade, mas a língua sempre vai ser bom.

Tem o primeiro beijo sem graça. O do casamento morno, do namoro em fim de expediente, da relação estagnada. É tão esquecível que você nem sente. Um dia acorda e esqueceu como eram os outros beijos. Tem casal que acorda um dia e resolve relembrar como era. Tem casal que se separa. E tem os piores que resolvem relembrar fora do casamento. Beijar vira 100% safadeza, traição, pecado.

Cem por cento porque todo beijo é meio traição, 50% safadeza e metade pecado. Todo beijo é de olhos bem fechados. O bom beijo não é só o de língua, mas o que acaba em dois sorrisos. E quando você abre os olhos sabe que pode beijar de novo. Como se fosse o primeiro.