escuridão

No escuro

Escuridão

Sua imaginação era fértil. E isso bastava para a maioria das situações que a vida lhe dava. A solidão no campus, a dificuldade nas aulas envolvendo números e as três horas diárias no ônibus para chegar à sala de aula. Tinha todas as histórias que precisava para se distrair dentro de si. Só não tinha a coragem para enfrentar o interior da Casa Preta.

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Desde criança deu nome para aquela pequena instalação que ficava no quintal. O pai, corpulento, era carpinteiro amador, enquanto não trabalhava como arquiteto e fazia questão de não ter lâmpadas ou janelas. Apenas a porta pesada e que emperrava. Precisaria chegar à maioridade para ser capaz de mover aquilo, e com muita dificuldade. Quando criança era como tentar empurrar um prédio.

Lembrava bem dos dias de plantões do hospital. Todas as quintas, a mãe não estava e a escuridão era maior. Às vezes, ainda via a porta entreaberta e a luz permitia que enxergasse os olhos vazios da máscara de gás, pendurada na parede em frente à entrada. Nos momentos mais terríveis encarava a si mesmo naquele olhar e o seu próprio reflexo parecia apagar toda dor que pudesse alcançar sua alma.

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Sempre chegava cansado nas manhãs de sexta por causa da aula de quinta. Era um curso que julgavam vital para sua formação e foi o horário em que conseguiu encaixe. Naquela noite após a aula saltou do ônibus para a madrugada na rua. O vento cortante e a chuva fina ajudavam a mantê-lo acordado. Olhou para a luz do poste um segundo antes que apagasse sozinha. Quase sobrenatural.

Na escuridão, se viu só em seu enredo. Desconfortável, lembrou novamente da máscara de gás. Gemeu como se as dores do passado fossem palpáveis na penumbra. Suas mãos se moveram em um abraço a si mesmo, como se tivesse novamente o corpo de uma criança com dor e frio.

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No enterro do pai obedeceu a mãe e ajudou a levar o caixão. O braço frágil, parecia como graveto quase se partindo com o peso do esquife. Os dedos viravam gelo na alça de metal e imaginou o corpo dentro do ataúde cada vez mais frio naquele inverno. Houve um tempo em que pensar nele era sentir o próprio calor do seu suor. Buscava imaginar qualquer conto para não encarar o asco.

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Recitou sozinho um desafio heroico. Era um guerreiro diante do enorme monstro da máscara de gás. Tropeçou em uma pedra que imediatamente agarrou. Arremessou contra a noite e não obteve resposta. Era como atirar uma moeda em um poço sem fundo.

Ofegante, se imaginou novamente abraçado pela própria escuridão. O manto negro se estendia e se movia tal qual uma rede de pesca na água. Lembrou-se das lições de luta que nunca teve. A mão se abriu com todos os dedos em riste e colados um no outro, como lâmina presa ao próprio pulso.

Dançou cortando cada membro penumbroso e avançando sem parar. A mochila atrapalhava os movimentos rápidos, mas não deixaria que nada o interrompesse. Lutava por sua liberdade. De repente, ouviu o som de algo caindo no chão. Era a pedra. Se viu em um facho de luz e estava sozinho e a salvo. As lembranças ruins sumiram. Tinha acabado outra história.

Suspirou com a proximidade da casa. Já se sentia cansado pela manhã seguinte mas pensou no sábado e nos livros que poderia ler. E se sentiu revigorado pelo conforto do escapismo que viria.

A vida era boa.