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Você devia ver “Footloose”

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Eu adoro filmes dos anos 80. De Curtindo a vida Adoidado a Guerra nas Estrelas, os mais bobinhos – deliciosamente classificados como “Sessão Aventura” – têm sempre um roteiro simples, sem buracos e que conta uma história de forma competente. É uma sensação diferente em ver àqueles filmes que mudam a história do cinema. É pipoca. Uma dessas produções se chama Footloose, que produtores gostam de chamar de “o filme que definiu uma geração” na hora de lançar eventuais versões de diretor para DVD.

Bem menos. A história escrita por Dean Pitchford não tem nada de pretensiosa e quase todo mundo já conhece: Ren McCormick (Kevin Bacon) é um rapaz criado na cidade grande cujos cabelos deixam claro que vive na mesma época que David Bowie e que se muda para uma cidade pequena do interior, onde música, bebida e fliperama não são permitidos. Levando numa boa esse tal de bullying, o rapaz resolve organizar um baile de formatura para mudar a proibição. No meio disso tudo, conquista Ariel Moore (vivida por Lori Singer, que precisa mesmo de um X-tudo nesse filme), que é filha do pastor conservador Shaw Moore (John Lithgow), responsável pelo banimento da dança, da bebida, do fliperama…

Eu gostaria muito que alguns manifestantes que foram às ruas nos últimos dias – e políticos eleitos – dessem uma boa olhada no filme. Uma das coisas mais legais de Footloose é que o único vilão do filme é Chuck (Jim Youngs). O reverendo Shaw é um antagonista, mas está longe de ser realmente um “inimigo do bem”, em um filme tão bidimensional. Mesmo como representante do conservadorismo local, o sujeito consegue entender o “vou longe demais”. Em uma ida à creche local, Shaw vê o resultado do medo: fiéis passam a queimar livros, que consideram ofensivos. O reverendo não participa da fogueira.

“O que vocês vão fazer depois que queimarem todos os livros?” É mais ou menos a pergunta que tenho vontade de fazer para cada reacionário maluco que apareceu no Facebook de dois anos pra cá. O que você vai fazer depois que conseguir impedir todos os casamentos gays que puder, trazer de volta todas as ditaduras que pedir e punir cada um que ande fora da sua linha?

Vai ver mais Footloose, cara. É um filme legal.

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Medos e esperanças

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Em 2002, o mundo artístico crucificou a atriz Regina Duarte ao falar em medo para defender a permanência do PSDB no poder, com o então candidato José Serra. A reação instantânea tinha o seguinte princípio: era um absurdo impedir a alternância no poder com o discurso do medo da mudança.

Em a Alma Imoral, de Nilton Bonder, o rabino explica que a tradição é a guardiã do passado. Assim como o conservadorismo se coloca como defensor de nossas tradições para contrapor a necessidade de mudanças que toda sociedade tem. Bonder explica que a traição seria a guardiã do futuro, a garantia de que vamos mudar. Judeus só existem até hoje porque mudaram o dogma de que apenas filhos de pais judeus eram judeus após a aniquilação em massa de seus homens e estupro de suas mulheres. Se passou a considerar que o filho de mães judias seria judeu. E assim o judaísmo persiste milênios depois enquanto outras religiões estão quase extintas.

Por mais que tudo o que construímos seja digno de proteção, a mudança é vital para a vida. E para qualquer País. Nem mesmo na Noruega você encontrará alguém que ache que as coisas são boas e nada pode melhorar. Talvez seja por isso que em política raramente o discurso do medo acaba em coisas boas. Serra perdeu as eleições para um Lula três vezes derrotado em eleições presidenciais.

Quando o PT usa o medo para defender suas conquistas não mostra apreço pelo que construiu. O discurso de medo reflete também o temor de quem discursa em perder. Mas as derrotas são normais na política, que está sempre mudando. É inútil querer impedir isso ao invés de garantir ao eleitor que pode atender seu desejo de mudança. O maior medo que quem vota tem é justamente o de perder a esperança.