Conto

Todo mundo diz que quem conta um conto aumenta um ponto, mas eu prefiro descrever os textos desta categoria como histórias curtas demais para serem um capítulo de livro e longas demais para um tweet.

Todo clichê de carnaval tem seu fim

Vulto

A hashtag #PénaFolia durou o tempo do seu amor naquela avenida. Ou um pouquinho mais. Vibrou com a escola do coração e com as que não moravam lá também. Carnaval, o peito cabe todo mundo que trabalha para entrar na Sapucaí ou naquilo lá que se faz em São Paulo. A chuva lavou a alma do passista enquanto cantarolava o samba-enredo. “Esse ano é nosso! Não tem como…”

Sempre tem.

Chorou cada lágrima da derrota como se fosse a última, jurou cada jurado como se não houvesse amanhã e prometeu não ligar mais para isso no ano que vem. Tudo conversa de quarta-feira de cinzas. No desfile das campeãs, estava lá. Era o próprio retrato da amargura feliz. Não tem carnaval que apague um amor assim. Domingo já pensava no próximo ensaio. Isquindô, isquindô…

Um homem na calçada

Vulto

Era uma história antiga. Havia escrito para a coluna de uma revista mensal, que não chegara ao décimo número. O enredo falava de um homem misterioso, que acompanhava as pessoas na calçada com um olhar até entrarem juntos em um bar. Abordava cada coadjuvante com uma proposta sobre a vida ou morte.

Não lembrava do final. Já vivia os tempos de “piloto automático”.

Pediu a quarta dose de uísque. Virou a terceira de um gole só, com o segundo remédio da noite. O analgésico sempre diminuía melhor as dores do pulso depois do anti-inflamatório. O próximo passo seria ir ao banheiro trocar o emplastro, mas antes sentiria pena de si mesmo mais uma vez. Era metódico.

Foi um momento antes disso que viu o vulto pela vitrine do bar. Não mais do que um momento. Os olhos se cruzando enquanto lia os lábios do homem misterioso. Apenas uma história comum, que não lembrava mais do fim. Respondeu que sim e pagou a conta. Ao sair pela porta da frente, recebeu um tapa nas costas do velho amigo. Lembraria do final antes da azia.

Dia de Reis

Reis Magos

Quando nasceu a menina foi visitada por três reis magos ainda na manjedoura. Cada um lhe ofertou um presente para que tivesse uma vida plena:

– O primeiro lhe presenteou com beleza, para que todos os homens a admirassem.
– O segundo lhe deu determinação, para que tudo que faltasse, ela buscasse.
– E o terceiro concedeu à menina, inteligência (que é diferente de conhecimento) para que nada lhe faltasse.

Mas havia um quarto rei mago indignado por não ter sido convidado para a visita. E amaldiçoou a menina: quando completasse uma certa idade, tentaria implantar hidrogel nas pernas e quase morreria.

No escuro

Escuridão

Sua imaginação era fértil. E isso bastava para a maioria das situações que a vida lhe dava. A solidão no campus, a dificuldade nas aulas envolvendo números e as três horas diárias no ônibus para chegar à sala de aula. Tinha todas as histórias que precisava para se distrair dentro de si. Só não tinha a coragem para enfrentar o interior da Casa Preta.

******

Desde criança deu nome para aquela pequena instalação que ficava no quintal. O pai, corpulento, era carpinteiro amador, enquanto não trabalhava como arquiteto e fazia questão de não ter lâmpadas ou janelas. Apenas a porta pesada e que emperrava. Precisaria chegar à maioridade para ser capaz de mover aquilo, e com muita dificuldade. Quando criança era como tentar empurrar um prédio.

Lembrava bem dos dias de plantões do hospital. Todas as quintas, a mãe não estava e a escuridão era maior. Às vezes, ainda via a porta entreaberta e a luz permitia que enxergasse os olhos vazios da máscara de gás, pendurada na parede em frente à entrada. Nos momentos mais terríveis encarava a si mesmo naquele olhar e o seu próprio reflexo parecia apagar toda dor que pudesse alcançar sua alma.

*****

Sempre chegava cansado nas manhãs de sexta por causa da aula de quinta. Era um curso que julgavam vital para sua formação e foi o horário em que conseguiu encaixe. Naquela noite após a aula saltou do ônibus para a madrugada na rua. O vento cortante e a chuva fina ajudavam a mantê-lo acordado. Olhou para a luz do poste um segundo antes que apagasse sozinha. Quase sobrenatural.

Na escuridão, se viu só em seu enredo. Desconfortável, lembrou novamente da máscara de gás. Gemeu como se as dores do passado fossem palpáveis na penumbra. Suas mãos se moveram em um abraço a si mesmo, como se tivesse novamente o corpo de uma criança com dor e frio.

*****

No enterro do pai obedeceu a mãe e ajudou a levar o caixão. O braço frágil, parecia como graveto quase se partindo com o peso do esquife. Os dedos viravam gelo na alça de metal e imaginou o corpo dentro do ataúde cada vez mais frio naquele inverno. Houve um tempo em que pensar nele era sentir o próprio calor do seu suor. Buscava imaginar qualquer conto para não encarar o asco.

*****

Recitou sozinho um desafio heroico. Era um guerreiro diante do enorme monstro da máscara de gás. Tropeçou em uma pedra que imediatamente agarrou. Arremessou contra a noite e não obteve resposta. Era como atirar uma moeda em um poço sem fundo.

Ofegante, se imaginou novamente abraçado pela própria escuridão. O manto negro se estendia e se movia tal qual uma rede de pesca na água. Lembrou-se das lições de luta que nunca teve. A mão se abriu com todos os dedos em riste e colados um no outro, como lâmina presa ao próprio pulso.

Dançou cortando cada membro penumbroso e avançando sem parar. A mochila atrapalhava os movimentos rápidos, mas não deixaria que nada o interrompesse. Lutava por sua liberdade. De repente, ouviu o som de algo caindo no chão. Era a pedra. Se viu em um facho de luz e estava sozinho e a salvo. As lembranças ruins sumiram. Tinha acabado outra história.

Suspirou com a proximidade da casa. Já se sentia cansado pela manhã seguinte mas pensou no sábado e nos livros que poderia ler. E se sentiu revigorado pelo conforto do escapismo que viria.

A vida era boa.

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Sobre nomes e apelidos

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Dizem por aí que palavras têm poder. Imagine então a importância de um nome. Muitos deuses e pessoas não revelavam seus nomes para ninguém porque no tempo da vó da vó da vó daquela vó, saber o de qualquer um dava o seu poder. É por isso que sempre gostavam de um título como Fulano, o deus das tempestades e por aí vai. O título virava o nome e o nome verdadeiro virava um segredo.

Só que isso se perdeu. Como outras histórias. E nomes passaram a ser de conhecimento público. A gente até se esforça para que todo mundo conheça, mesmo sem saber o tamanho da encrenca que estamos arranjando. Pior ainda é quando alguém resolve escolher um novo para a gente: vagabunda, arroz, morcego, etc.

Falam por aí que o Bocão era o campeão dos apelidos. Todo apelido que dava em alguém, pegava de um jeito que a pessoa convivia com aquilo muito tempo depois. Juquinha era chamado por nome de bala a vida toda e quando foi apresentar o Jornal Nacional, o máximo que conseguiu foi que acrescentassem o sobrenome. Garrinchão virou escritor respeitado, mas o mundo sabia que sua letra nunca foi bonita. E por aí vai.

Ninguém pensava muito a respeito, mas era fato. Você podia ter o nome mais legal do mundo, mas se conhecesse Bocão você ia se chamar como ele quisesse. Todo apelido vinha com uma história engraçada sobre o porquê daquela alcunha, que sempre se encerrava com uma imitação do recém-batizado. O cara era um artista.

Sempre tinha alguém na rua que resolvia desafiar o Bocão e recusar o batismo. Era pior. A história do apelido ganhava um epílogo e a emenda acabava pior do que o soneto. O Capitão virou Capitão Choro, por exemplo. E nos seus últimos dias só chamavam pelo sobrenome. Dureza. Mas enfrentar o cara sempre era burrice.

E nas conversas de fim de tarde, o cara sempre pregava a sua sagrada liturgia. “Apelido tem que aceitar. Eu sempre aceitei o meu, pô”. Era o Evangelho Segundo Bocão. E todos deviam respeitá-lo. Todo mundo cresceu e alguns conseguiram até se safar dessa, mas seus filhos pagaram o pecado. E os filhos de seus filhos também.

Por que toda rua, prédio ou bairro tem um Bocão, que volta e meia troca de nome para não dar mole. Afinal, saber o verdadeiro nome do Bocão te dava um poder enorme sobre o cara. Por que quem dá nome para os outros, morre de medo que descubram o seu. Aquele de verdade.

Como chamavam ele quando você o conheceu?

É tudo verdade
O texto acima é 99% verdadeiro. Nomes têm um poder enorme, apelidos também e o Bocão vive por aí até hoje. No desenho do Scooby Doo chamavam ele de Ruivo Hering, inclusive. É tudo culpa dele.

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Você é responsável?

Tinha a ver com palavras.

Quando esqueceu a merendeira na escola, ouviu do pai durante todo o regresso sobre responsabilidade. Era uma palavra encouraçada, que se abria como um cobertor, caía como uma pluma e pesava uma tonelada.

Tergiversou sobre o significado. “Responsabilidade” pesava em seus ombros como uma mochila do segundo grau. A poltrona traseira do carro era um palco com a imensa plateia de seus pais a lhe olharem pelo retrovisor. Tinha em si toda vergonha do mundo. Era alvo de qualquer calibre que disparasse reprovação. Responsável.

O carro parou e correu para o portão da escola. Era noite e não havia ninguém para testemunhar sua punição. A freira esticou o braço para entregar a merendeira e sorriu para ele. Era sua única amiga naquela ilha. Voltou ao carro, mas deixou aquele seu sorriso para trás.