Mês: Fevereiro 2015

Bastante

Bastante

A gente vive a cem por hora. Nos dedicamos à família, aos amigos, aos estudos e, é claro, ao trabalho. Trabalhamos duros para termos coisas que nem precisamos. O livro que não leremos, o canal de TV a cabo que não vamos ver e a roupa que só usamos uma vez até que não cabe mais.

A vida encurta quanto mais você se alonga. Esquenta toda vez que você acha que as coisas estão ficando frias. E te assusta quando as coisas estão calmas. A única certeza que a vida te dá é que dizer que é o bastante, só depende de você. Não se esqueça disso.

O pior cinema do Rio de Janeiro

Estação Net Botafogo - rua Voluntários da Pátria

Estive no Estação Net Botafogo (rua Voluntários da Pátria) na sexta-feira (21.02) para assistir Birdman, que no aviso do próprio cinema – mal sabia eu que estava na pior sala de cinema do Rio de Janeiro – começaria às 19h20. Comprei ingresso às 18h30 e esperei a abertura da sala, que abriu no horário normal. Minutos antes do início da sessão um homem entrou para avisar que a sessão atrasaria porque ainda havia lugares e gente comprando.

Sem entender muito bem o motivo, alguns espectadores protestaram e o funcionário alegou que a prática era comum, sempre visando atender as pessoas que se atrasassem um pouco. Fica a dica para não se comprar ingresso para duas sessões seguidas por ali. Sem muitos mais protestos, ficou por isso mesmo mas não sem antes um segurança repetir o aviso de forma mais enfática para os espectadores. Dessa vez, não houve novos protestos. Já estávamos mais conformados, mas a sala aplaude ironicamente o atraso após às 19h20.

A sessão, enfim, começa. Mesmo após o trailer (além do atraso, o cinema exibiu todos os filmes publicitários que poderia) pessoas continuam entrando na sessão, o que atrapalha quem já está assistindo. Chego ao ponto de interromper duas pessoas que conversam na minha frente sobre qual o seu lugar, suplicando que quero assistir o filme em paz. Minutos depois, de onde estou, essa confusão parecia estar encerrada mas não a do cinema.

Com cerca de meia hora de filme, as legendas param de aparecer. Espectadores, que não são obrigados a entender o idioma do filme por ouvido, alertam. O filme é interrompido e volta três vezes sem que haja sucesso na resolução do problema. Insatisfeitos, alguns clientes resolvem ir embora.

O cinema demonstra novo despreparo. Mesmo com as pessoas saindo da sala de cinema, os funcionários se recusam a devolver o dinheiro sem o canhoto da sessão. É claro que esse é um direito da empresa, mas não resolve a vida de quem, talvez inocentemente, confiou na sala ao entrar e não lembrar de guardar o seu ingresso no bolso. Um espectador me ajuda a encontrar o meu e resolvo ir embora. Novas informações desencontradas: funcionários dizem que em cinco minutos a sessão recomeça desde o inicio do filme.

Vou a uma fila para receber o dinheiro de volta – curiosamente é a mesma da compra de ingresso – e ouço de uma espectadora que é a segunda vez que passou pelo problema. Um funcionário nos aborda e repete o aviso dos quatro minutos para o retorno da sessão, mas me garante que o retorno será do mesmo ponto onde foi interrompido. Resolvo tentar novamente e, realmente, a sessão volta e, desta vez, transcorre sem problemas. Com quase meia hora após o previsto, deixo o cinema agradecendo não ter nenhum outro compromisso imediato. Deveria sair às 21h20 e saio às 21h50.

O Estação Net Botafogo, com outros nomes, tem longo histórico de serviços prestados aos cinéfilos do Rio de Janeiro. Infelizmente, o retrospecto recente indica mais problemas do que prazer em suas sessões. A sétima arte é um encontro íntimo entre o espectador e a tela. Tudo que interfere, distrai ou atrapalha o clima desse compromisso, estraga a experiência e prejudica a exibição do filme. Em tempos onde qualquer um pode assistir filmes em casa, sair para assistir numa sala é um evento que deve ser tratado com todo o carinho por quem cobra por ele.

Ao invés de ajudar, a empresa e seus funcionários jogaram contra seu público-alvo, do início ao fim da sessão. O porta-voz garantiu ser prática comum atrasar sessão para receber atrasados ao invés de garantir que ninguém entre no cinema após o início do filme e atrapalhe quem chegou na hora. Os funcionários não se entenderam sobre como a história recomeçaria e não se esforçaram para atender quem preferia ir para casa após o Estação não entregar o que promete: um bom evento. E, no final, o mesmo sujeito que avisou do atraso não apareceu para pedir desculpas ou oferecer qualquer cortesia pelo péssimo serviço. Foi, sem dúvida alguma, a pior experiência que este cinéfilo já teve. Foi o pior cinema do Rio de Janeiro.

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Comportamento

Na fila do cinema que leva a dois caixas um acaba de ficar desocupado. Antes que aproveite, um senhor ocupa o espaço e começa a inquirir a balconista. Por um minuto me divido entre a dúvida se é um furão ou se perdi algo. Espero, observo e entendo. Aquele era o caixa preferencial.

O senhor talvez fosse abrupto mas certamente em seu direito.

Não reclamei e evitei um constrangimento por pura distração. Fiz o certo.

Na dúvida, podemos sempre acreditar no outro. Mais do que embaraços, evita que percamos o básico para vivermos em sociedade. Cinema é a maior diversão.

Todo clichê de carnaval tem seu fim

Vulto

A hashtag #PénaFolia durou o tempo do seu amor naquela avenida. Ou um pouquinho mais. Vibrou com a escola do coração e com as que não moravam lá também. Carnaval, o peito cabe todo mundo que trabalha para entrar na Sapucaí ou naquilo lá que se faz em São Paulo. A chuva lavou a alma do passista enquanto cantarolava o samba-enredo. “Esse ano é nosso! Não tem como…”

Sempre tem.

Chorou cada lágrima da derrota como se fosse a última, jurou cada jurado como se não houvesse amanhã e prometeu não ligar mais para isso no ano que vem. Tudo conversa de quarta-feira de cinzas. No desfile das campeãs, estava lá. Era o próprio retrato da amargura feliz. Não tem carnaval que apague um amor assim. Domingo já pensava no próximo ensaio. Isquindô, isquindô…

Um homem na calçada

Vulto

Era uma história antiga. Havia escrito para a coluna de uma revista mensal, que não chegara ao décimo número. O enredo falava de um homem misterioso, que acompanhava as pessoas na calçada com um olhar até entrarem juntos em um bar. Abordava cada coadjuvante com uma proposta sobre a vida ou morte.

Não lembrava do final. Já vivia os tempos de “piloto automático”.

Pediu a quarta dose de uísque. Virou a terceira de um gole só, com o segundo remédio da noite. O analgésico sempre diminuía melhor as dores do pulso depois do anti-inflamatório. O próximo passo seria ir ao banheiro trocar o emplastro, mas antes sentiria pena de si mesmo mais uma vez. Era metódico.

Foi um momento antes disso que viu o vulto pela vitrine do bar. Não mais do que um momento. Os olhos se cruzando enquanto lia os lábios do homem misterioso. Apenas uma história comum, que não lembrava mais do fim. Respondeu que sim e pagou a conta. Ao sair pela porta da frente, recebeu um tapa nas costas do velho amigo. Lembraria do final antes da azia.