Mês: Novembro 2014

No escuro

Escuridão

Sua imaginação era fértil. E isso bastava para a maioria das situações que a vida lhe dava. A solidão no campus, a dificuldade nas aulas envolvendo números e as três horas diárias no ônibus para chegar à sala de aula. Tinha todas as histórias que precisava para se distrair dentro de si. Só não tinha a coragem para enfrentar o interior da Casa Preta.

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Desde criança deu nome para aquela pequena instalação que ficava no quintal. O pai, corpulento, era carpinteiro amador, enquanto não trabalhava como arquiteto e fazia questão de não ter lâmpadas ou janelas. Apenas a porta pesada e que emperrava. Precisaria chegar à maioridade para ser capaz de mover aquilo, e com muita dificuldade. Quando criança era como tentar empurrar um prédio.

Lembrava bem dos dias de plantões do hospital. Todas as quintas, a mãe não estava e a escuridão era maior. Às vezes, ainda via a porta entreaberta e a luz permitia que enxergasse os olhos vazios da máscara de gás, pendurada na parede em frente à entrada. Nos momentos mais terríveis encarava a si mesmo naquele olhar e o seu próprio reflexo parecia apagar toda dor que pudesse alcançar sua alma.

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Sempre chegava cansado nas manhãs de sexta por causa da aula de quinta. Era um curso que julgavam vital para sua formação e foi o horário em que conseguiu encaixe. Naquela noite após a aula saltou do ônibus para a madrugada na rua. O vento cortante e a chuva fina ajudavam a mantê-lo acordado. Olhou para a luz do poste um segundo antes que apagasse sozinha. Quase sobrenatural.

Na escuridão, se viu só em seu enredo. Desconfortável, lembrou novamente da máscara de gás. Gemeu como se as dores do passado fossem palpáveis na penumbra. Suas mãos se moveram em um abraço a si mesmo, como se tivesse novamente o corpo de uma criança com dor e frio.

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No enterro do pai obedeceu a mãe e ajudou a levar o caixão. O braço frágil, parecia como graveto quase se partindo com o peso do esquife. Os dedos viravam gelo na alça de metal e imaginou o corpo dentro do ataúde cada vez mais frio naquele inverno. Houve um tempo em que pensar nele era sentir o próprio calor do seu suor. Buscava imaginar qualquer conto para não encarar o asco.

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Recitou sozinho um desafio heroico. Era um guerreiro diante do enorme monstro da máscara de gás. Tropeçou em uma pedra que imediatamente agarrou. Arremessou contra a noite e não obteve resposta. Era como atirar uma moeda em um poço sem fundo.

Ofegante, se imaginou novamente abraçado pela própria escuridão. O manto negro se estendia e se movia tal qual uma rede de pesca na água. Lembrou-se das lições de luta que nunca teve. A mão se abriu com todos os dedos em riste e colados um no outro, como lâmina presa ao próprio pulso.

Dançou cortando cada membro penumbroso e avançando sem parar. A mochila atrapalhava os movimentos rápidos, mas não deixaria que nada o interrompesse. Lutava por sua liberdade. De repente, ouviu o som de algo caindo no chão. Era a pedra. Se viu em um facho de luz e estava sozinho e a salvo. As lembranças ruins sumiram. Tinha acabado outra história.

Suspirou com a proximidade da casa. Já se sentia cansado pela manhã seguinte mas pensou no sábado e nos livros que poderia ler. E se sentiu revigorado pelo conforto do escapismo que viria.

A vida era boa.

U

Letra U

Todo pereba já sofreu o bullying do uníssono uuuu. O “U” pode ser o imã que sempre te atrai ou uma estrada que se você começa, cai e não consegue subir do outro lado. É mesmo uma metáfora da vaia.

Uma vez, unidade de medida, unitário e… Umas vezes. Sempre volta para o mesmo lugar ou te atrai pra isso. Não é de graça que tem muita história começando com era uma vez. Só uma?

Apesar de todo esse lado deprê, o “u” pede sempre a ajuda do agá pra cantar a música ou dizer que gostou de algo no huuum. Ou do “r” pra falar “sim” pra tudo no “urrum”. Em bom português, é uma letra que se contradiz, porque são muitas. Um clichê.

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Sob a luz da lua

Lua

Não sou a pessoa mais espiritual do mundo. Mas acredito que o bem que a gente leva da vida é o bem que a gente faz em vida. Não tem exatamente a ver com ir para o céu, mas em evitar levar no bolso as pedras que nos atiram.

Pela noite, a lua é a mesma, independente do que achamos dela. O que muda é o que cada um faz sob sua luz e no que vai dormir pensando. Felizes os que não sonham com as pedras nos bolsos.

Acima de tudo, sempre que alguém parte quero pensar em suas coisas boas. No bem que fez e que seja tudo que leve dessa vida. Oro por isso. E, repito, não tem a ver com ir pro céu. Só não quero que leve pedra alguma no bolso.  Tenha bons sonhos.

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Letra T

Depois do uni-duni sempre vem o Tê. T, óbvio, de Tiago. Assim, sem “h” mesmo, vocês já sabem. O “tê” nunca foi uma palavra por si só, mas torna outras palavras muito mais filosóficas quando entra.

Conhece-te a ti mesmo, dizia Sócrates com ênfase em quem estava falando. Tu tá me escutando?
O “T” sempre me pareceu a letra mais firme e dedo-na-cara de todas – sem piadas de cunho sexual ou uso um verbo com “t” que rima com mar e tem “o” no meio. Afinal de contas é uma perna só e dois braços abertos, tal qual o Cristo Redentor, que tem dois “T” pra não deixar nenhuma dúvida.

T de Tatu, de Tartaruga e Taturana. Não tem bicho muito bonito com essa letra. Mas pode apostar que todos são porretas no final. O Entei começa com “E”, mas o “T” é que salta aos olhos. Tá tudo bem agora.

Não é nada, não é nada…

Já escrevi muita coisa na vida mas sentia falta de ter um cartão de visitas, algo pra chamar de meu. Fiz este site.

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Nossos sonhos não existem. São construídos todos os dias. Simbora.

Das nossas escolhas

Livre Arbítrio

Tem aquela pergunta filosófica sobre poder divino: pode seu Deus todo-poderoso criar uma montanha tão pesada, que nem mesmo ele pode mover? Qualquer que seja a resposta, já sabe que o seu Deus não é todo poderoso. E acaba desse jeito sem fundo musical.

Anos depois que li isso pela primeira vez ouvi a resposta de um professor de história: “pode”. E uma longa explicação sobre o significado do livre-arbítrio. Deus pode criar essa montanha e escolher mover ou não, se somos criados à sua semelhança também optamos escolhas semelhantes.

Religiões à parte, a pergunta é uma fábula sobre nossas responsabilidades. Evite sempre culpar as instituições que você ama, vota ou participa, os amigos que você escolhe e a família que você convive pela sua vida. Somos os únicos responsáveis pelos caminhos que escolhemos. E, o mais assustador, é termos que conviver com isso. Não é fácil mesmo.

Força aí. Mas você tá sozinho, ok?