Mês: Outubro 2014

Eu & as eleições

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Sou desses dinossauros que inaugurou a urna eletrônica no Brasil. Mais do que isso: jamais votei com cédula de papel. Desde que comecei a votar aos 16 anos, já tinha que apertar o dramático botão de “confirma”. Nada mal para quem começou a eleger político antes de poder dirigir. Pelo menos, acho que já aprendi a votar, dirigir eu deixo para a próxima vida.

O voto – e deixei para escrever isso depois das eleições deste ano de propósito – é algo tão importante que só deixei de votar uma única vez, em que estava fora do estado da minha região eleitoral. De lá pra cá, acumulo muitos alívios e algumas tristeza. Sou pragmático e entendo que toda campanha a opção é pelo menos pior. Como o Brontossauro que se contenta com pequenas folhas na hora do almoço…

De todos os votos, só guardo feliz o de 2002. A primeira vez que Lula chegou à presidência representa a vitória da minha geração – ao menos a que ia para as ruas protestar contra os oito anos da era FHC – e o fim da nossa inocência. Passamos a deixar de ser jovens, para nos tornarmos adultos. Chegamos ao topo da cadeia evolucionária e descobrimos que esse é só o início de novos problemas.

Em toda eleição, tento recuperar uma porção do jovem que viu tantas passeatas culminarem com a chegada de um partido no poder. Este ano, depois de descartar Dilma no primeiro turno, voltei a votar no PT no epílogo eleitoral. Sem orgulho e com pregador no nariz. Desde 2002, não há felicidade. Só alívio.

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Trinta anos x Vinte anos

Trintão: Dire Straits é da minha época.

Vintage: Não é não, cara.

T: Ok. Então tem o Led Zepellin…

V: Menos. Guns e Jon Bom Jovi só. Eu vou bem com Panic at The Disco, Coldplay…

T: Nirvana

V: Beleza. Coldplay tá levando ainda.

T: Vocês viram o fim do R.E.M. e a morte de cada um dos Ramones.

V: Cara… Vocês permitiram aqueles grupos de axé-pagode proliferarem.

T: E a música sertaneja ?

V: Touché.

Quê

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Tem uma cena em Fellinni 8 e ½ onde o protagonista se lembra de seu encontro com uma prostituta na praia. O “Q” sempre me lembrou essa personagem, Saraghina. Letra voluptuosa, lânguida e com um quê de sedução, sempre exibindo uma perna na estrada para pegar carona.

Às vezes é atração fatal com alguém afim de briga perguntando um agressivo “o quê?” pra qualquer bom dia. Graças à internet abriu até mão do circunflexo com “oq” ou um pistoleiro solitário feito a arma no coldre, repara só: “q”.

E ainda é o que vem depois de toda motivação: porque, por quê, porquê e por que. Vai saber o quê, quando e quem. Não precisa dizer onde, mas a gente sempre sabe no quê o “q” vai dar.

Você é responsável?

Tinha a ver com palavras.

Quando esqueceu a merendeira na escola, ouviu do pai durante todo o regresso sobre responsabilidade. Era uma palavra encouraçada, que se abria como um cobertor, caía como uma pluma e pesava uma tonelada.

Tergiversou sobre o significado. “Responsabilidade” pesava em seus ombros como uma mochila do segundo grau. A poltrona traseira do carro era um palco com a imensa plateia de seus pais a lhe olharem pelo retrovisor. Tinha em si toda vergonha do mundo. Era alvo de qualquer calibre que disparasse reprovação. Responsável.

O carro parou e correu para o portão da escola. Era noite e não havia ninguém para testemunhar sua punição. A freira esticou o braço para entregar a merendeira e sorriu para ele. Era sua única amiga naquela ilha. Voltou ao carro, mas deixou aquele seu sorriso para trás.

Invasão

Publicado originalmente na Trasgo #3.

Equipamento de rádio-pirata e um notebook. Não era o que gostaria de ter enquanto trinta zumbis arrombavam a porta do apartamento que nem era o seu. Gabriel suspirou enquanto confirmava o que impedia a entrada: a estante de metal e tudo o que encontrou pela frente. Minutos para evitar o fim onde tudo começou.

O bloco com rabiscos estranhos, notebook ligado e a canção em uma língua exótica. A mesma que todos os zumbis falavam, ponto em comum além de ouvidos sangrando. Olhou para fora e viu dezenas deles na frente do prédio. Não dava mais medo do que o que via no terraço em frente: zumbis construindo uma antena. A canção sairia da comunidade e ganharia o asfalto. “Uma canção, um comando e uma mente”, concluiu em um raciocínio que quase não era seu. Ainda tentava entender porque ele e André não foram afetados.
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Desde crianças, André resolvia. A dupla arranjava problemas, Gabriel ponderava e André executava. Desafiou o Meleca no recreio e inscreveu os dois na oficina de criptografia. Foi a última coisa que estudaram juntos. Veio o vestibular, faculdade e outros interesses. Ainda lembrava da primeira aula. “A criptografia tem quatro objetivos, entre eles a integridade da mensagem.”
Matemática era mais um hobby do que a profissão. André analisava e discutia tudo pensando na sociedade. Estudou economia. Gabriel pensava em estrelas, virou físico.

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Começou no apartamento de Sinatra. Sua rádio-pirata de sucesso virou o sustento do rapaz de voz de veludo. Ninguém sabe como chegou ao estranho código anotado no bloco ao lado do computador. Símbolos impronunciáveis cantados em cada alto-falante da comunidade e na frequência da estação. O efeito foi crescente. Todos conversavam de um jeito que ninguém entendia. Ouvidos sangravam, como corrompidos pela melodia alienígena.

A primeira ação foi depredarem uma mercearia com a ajuda do proprietário. Todos eram zumbis, sem vontade ou hesitação. Até o Tique-Taque, famoso por gestos compulsivos, não piscava e nem repetia “bom dia”, padrão do seu TOC. Estava tudo dominado em minutos.

Os dois ficaram paralisados no apartamento de Marcel, que havia descido para comprar bebida e agora participava de tudo. Não foi preciso muita imaginação para entender a relação com a música, mas só Gabriel relacionava aquilo à chegada de alienígenas. André acreditava em uma ação para justificar uma nova chacina na favela.

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Tique-Taque piscava e falava duas ou três expressões compulsivamente. Coçava a nuca, mas sua compulsão corporal sumiu. Foi a primeira constatação após puxá-lo da rua para a portaria.

– O que houve? Por que estão fazendo isso?

A resposta vinha quase inaudível, mas em um padrão fonético e matemático. O amigo ainda os entendia, mas não se comunicava mais. Respondia naquela língua e sem personalidade visível. O amarraram e demoraram horas até buscarem o padrão. A criptografia ajudou tanto quanto entender que Tique-Taque ainda repetia o “Bom dia”, “Como é?” e “Fala tu”.

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Usava uma lógica familiar se não fosse distante de qualquer língua conhecida. Havia poucos fonemas, mas mudavam de sentido a cada vinte minutos. Logo, certas palavras e assuntos só poderiam ser pronunciados em certas horas. Refletiriam a respeito pelo resto de suas vidas. As pausas definiam o equivalente às vogais de cada palavra. O “a”, era mencionado no espaço de uma respiração e o “e” de duas e, assim por diante, até levar cinco suspiros para definir o “u”. Uma lógica muito humana para não ser terrestre. Mesmo com um efeito tão alienígena.

Não faziam ideia de como escrever então só poderiam supor que a música e o rascunho no bloco tinham algo em comum.

Tentaram traduzir para decidir o próximo passo, mas cada palavra vinha de uma enorme dor de cabeça e forte otite. Pararam quando o ouvido de Gabriel começou a sangrar. Entender completamente a ideia do que era cantado parecia ser a senha para serem dominados. Sem chegar ao final, já entendiam que a música algo sobre a unidade se tornando um zero, para que juntos todos fossem uma unidade mais poderosa.

Era algo perigoso. “Quase nazista”, disse o economista. E foi André que sugeriu que invadissem o prédio de Sinatra usando o carro de Marcel. Não era comum: André não tinha as ideias.

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Os dois detestavam escrever. Gostavam de ler, mas não de exercitar as palavras embora as aulas de sintaxe – e as que levassem uma compreensão lógica do português – os fascinassem. Se conhecessem um professor de linguística na época, talvez seguissem outro caminho. Viveram instantes de terror quando uma professora os obrigou a escreverem sobre amizade. Em uma disciplina que você não gosta, é a senha para uma recuperação e muitos finais de semana de castigo. Corriam risco de vida. Ao menos a vida que queriam. Apresentaram uma pequena crônica. Falava sobre os dois de uma forma quase intuitiva.

O Victor gosta de matemática. E o André também. A gente sabe que um mais um são dois, mas descobrimos que dois pode ser três, quatro, cinco… O Victor na escola é um. Mas minha mãe diz que ele é meu irmão e meu amigo. Já são dois. E eu ouvi do pai do André que pareço muito com o irmão dele então posso me considerar tio do meu amigo. Um mais um já são quatro.

A nossa amizade não é matemática, mas dá mais número que qualquer conta.

Tia Waniça fazia o tipo sentimental e profetizou que poderiam ser escritores. Não foram. A pequena redação virou totem. Andavam com uma cópia do texto em todas as carteiras que teriam. Por muito tempo se esqueceram disso mesmo que guardassem o papel surrado.

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André acelerou contra o prédio de Sinatra destruindo a porta da garagem, mas um carro estacionado ali fez seu automóvel não entrar completamente. Do lado do passageiro, Gabriel estava dentro do edifício, mas do lado do motorista o carro ainda estava fora. André estava preso no cinto de segurança e encurralado por uma multidão sem vontade.

“Vai você!”, disse, no que seria sua última ação. Foi fuzilado por tiros de alguém com ouvidos tingidos do próprio sangue. O carro bloqueando a entrada e Gabriel caindo assustado no chão antes de pegar as escadas. Ainda sentiu outras balas atingindo seus rastros. Estava só com suas ideias e teria que executá-las sozinho. E ainda lhe faltavam ideias.

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O apartamento estava aberto. Trancou e bloqueou a porta. Encontrou o rascunho e entendeu, mas interromper a programação não adiantou. Era permanente, como um vírus. O cérebro era o sistema operacional invadido.
Contabilizou as horas e refez os cálculos da sintaxe exótica. Voltou-se para a janela e berrou o conceito de “rendição” e, por um instante, a multidão parou. Entendeu que estava na métrica certa, mas não confundiria os zumbis por muito tempo.

Refletiu sobre a mensagem. O código binário anulava e levava ao unitário, superior a todos os zeros. O conceito de zerar qualquer individualidade em torno de uma única vontade. De forma lógica, tentou ver aquilo como a invasão de um computador. Um antivírus poderia resolver. Mesma língua e mensagem. Olhou o relógio e tinha poucos minutos para o próximo quarto de hora, quando os fonemas mudariam. A estante foi atravessada por um tiro.

Não sabia como criar uma estrofe naquela língua. Precisava de algo simples. A redação na carteira era a bula que tinha.

Reescreveu enfatizando os números e a morte do amigo. Tentou cantar no ritmo mecânico. Ouviu um “clique” do fim da munição de alguma arma no corredor junto com livros caindo e a estante se retorcendo, cedendo junto aos móveis quebrados. Manteve o tom monocórdio apertando o papel às mãos. Ao final, cantava que com um a menos, André continuaria vivo enquanto pudesse cantar aquilo. Dois menos um era dois.

Lá fora, a multidão desmaiava em um colapso coletivo instantâneo.

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A multidão acordou. E não lembrava o que aconteceu. Tique-Taque não piscava mais. Foi o primeiro a gritar por ajuda para reconstrução. Muitos se ofereceram. Em horas quase tudo estava reconstruído em um mutirão incansável. Todos os feridos foram hospitalizados. A morte de André permanecia obscura. Mas morte obscura na favela nunca foi prioridade policial. E aquilo foi esquecido.

Todos voltavam a serem os mesmos, mas sem a língua estranha. Agiam sem controle, mas com uma disposição enorme em ajudar. Contam que naquela comunidade, todos eram como irmãos. Às vezes alguém falava do economista que viveu ali. Ele tinha um irmão. Os nomes pareciam familiares. Talvez a física pudesse explicar, mas Gabriel nunca quis tocar no assunto. Só falava sobre invasões alienígenas e neurolinguística. Isso o deixou isolado e sozinho.

Afinal, nem todo mundo vive bem em comunidade.

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Sempre fui daquelas crianças que não sabia falar a língua do pê. É sério. Me enrolava muito ao tentar pronunciar qualquer sentença. Compreender os diálogos dos pequenos poliglotas era uma missão impossível. E ficamos por aí.

O “p” sempre foi aquela letra peituda, que equilibrava a comissão de frente em uma perna fininha… Ninguém entende muito bem como. O tal idioma infantil permaneceu obscuro muito tempo depois de adulto. Sempre tem alguém que lembre e queira engatar uma conversa a respeito.

Uso a única palavra que sei: parei.