Mês: Agosto 2014

Se afogando em palavras movediças

A história sem fim

Era um problema feito de palavras, tão sólidas quanto areia e água. Quanto mais pensava naquilo, mais era cercado por nomes, verbos, substantivos e até adjetivos referentes que o consumiam aos poucos. Cada passo era mais uma etapa rumo à sua morte por sufocamento. O chão esboroava em um poço léxico sem que distinguisse um significado claro. Era um estrangeiro tolhido pelo seu próprio idioma.

Se desesperou a cada centímetro que afundava e não esquecia seu medo. Tentou lembrar de coisas boas, como se fadas existissem. Não conseguiu. A areia léxica era mais forte que sua mente e o vencia tomando cada sinapse por tudo o que turvava sua visão.

Silenciosamente fechou os olhos. Pensou em imagens. O terno do apresentador do telejornal, a maquiagem da atriz da novela das 7 e a voz veludosa do locutor que berrava gol aos domingos. Sentiu as palavras se desvanescerem enquanto subia rumo à superfície. O apresentador de reality show, o concurso de musas e a reportagem sobre o candidato a prefeito.  O problema ainda era o mesmo, mas as palavras haviam mudado. Já respirava. Calmamente foi abrindo os olhos. O chão era só concreto novamente.

Estou na Farol Fantástico #3

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Meu conto A História Que Não Foi Escrita está entre os dez vencedores do Desafio Literário da Farol Fantástico, revista infanto-juvenil editada por Henrique de Almeida Barbosa do Vale e que sai a cada três meses. Conheci a publicação online este ano e achei bem bacana a opção de uma revista digital para essa faixa etária. Afinal, cresci lendo publicações como a série vaga-lume e outras histórias do tipo.

A história ficou em quinto lugar, o que considero uma posição para lá de honrosa. Se fosse resumir o enredo diria que é sobre alguém que precisa se salvar de uma história que está crescendo dentro de si mesmo. Confuso? Garanto que o conto é melhor do que a sinopse. 🙂 E acho que tanto o público infanto-juvenil quanto adultos podem curtir.

A data de lançamento da terceira edição é 1 de setembro, mas irei avisar a todos por aqui. Se você quiser ler a Farol Fantástico #2, clique aqui.

Êne

O vil senhor Êne

Até o som do “n” me incomodava. Anasalado, o Êne sempre me soou como uma letra vil. Um arqui-inimigo do poderoso Mega, a Liga Mutante e outros super-heróis que começassem com Ême. O malvado Senhor N parecia bem o nome de algum vilão de folhetim bizarro.

Estavam ali, lado a lado, mas sempre me pareceram rivais. Antes de pê e  sempre vem “m”, aprendi cedo. Justamente quando errei um ditado inteiro com a presença do vil Senhor N, vejam vocês. Tenho ou não razão na minha antipatia? Me custou uma nota em português…

Ao contrário de letras que tinham um design atraente, esse sempre me pareceu meio ridículo ou simplesmente incompleto. O “N” é só um “M” perneta ou um “Z” que bebeu demais? Não está descartada a hipótese de ser um grupo de “is contorcionistas.

Não leve a mal, Êne. Não é nada pessoal. Nadinha.

Ponto final

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Todos os dias repetiria aquela história em seu ouvido enquanto dormia. Começou com apenas um nome. Depois uma frase e então uma sentença completa. Com o tempo proferia toda história no intervalo dos sonos daquela criança.

O menino cresceu e a história cresceu dentro dele, como um parasita que cresce em nosso corpo sem que tomemos conhecimento. Mas esse era um enredo sem final. Ele vivia sua vida, mas muitas vezes vivia para a história. Entrava e saía de situações das quais se esquecia, quando era um veículo para uma aventura em que protagonizava.

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Estou há muito tempo entre essa comunidade. Um século ou dois a menos do que a segunda em que mais convivi, mas o suficiente para saber como gosto dela. De tudo aqui o que mais gosto é uma frase que todos pronunciam como uma saudação saudável. “Você está no ponto hoje”. Ouço o tempo todo. Não importa quanto tempo você viva. Nenhuma vida faz você não lamentar a ausência de amigos ou pessoas educadas.

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O menino cresceu.

Levou algum tempo até que entendesse o que havia se tornado. Por duas vezes perdeu meses de vida sem que encontrasse qualquer explicação que não fosse lapsos de memória. Quando passou uma década em um piscar de olhos não se desesperou, embora fizesse esse tipo. Havia retido a coragem do herói que nunca havia sido, ou melhor, que havia nascido nele.

Mais do que isso: já se recordava de parte do roteiro que sempre era deletado de sua memória. Agora entendia o que era. Só não tinha certeza de quem era. O excesso de tempo vivendo uma aventura que nunca lembrava de ter desejado parecia confundir quais memórias eram realmente suas.

Levou algum tempo até entender que as fases da história estavam relacionadas a quantidade de tempo em que sumia do que chamava de mundo mundano. Capítulos mais longos daquele livro o levavam por décadas e os parágrafos mais curtos por alguns meses apenas. Estava na história que haviam plantado nele. Mergulhava naquela semente.

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Não tenho vergonha de dizer que decidi morrer.

Não foi uma decisão difícil. Você não se cansa de viver uma vida que não é sua, mas é estafante protagonizar duas histórias dessa forma. Uma jamais muda, mas vivo por séculos. E a outra é efêmera porque interrompo antes de criar laços ou perco entes queridos para o tempo, meu maior inimigo. Entendo que um imortal querer morrer faz tanto sentido quanto obesos que desejam emagrecer.

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Na sua mente, cada momento heroico vinha como em um livro. Mas tudo era dividido por capítulos em que os textos não possuía pausas. Sua história só tinha um único ponto de onde tudo recomeçava do zero. Era novamente um herói conhecendo o início da sua jornada, revivendo a perda de sua esposa e jurando de morte seus inimigos, que levaria décadas para destruir. Depois do primeiro século passou a achar engraçado os termos “vírgula” e “ponto final”.

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Tudo o que precisei foi falar com as pessoas certas. Não posso dar cabo da minha própria vida, mas consigo deixar que o façam. O dinheiro serviu para contratar um caçador de monstros ou simplesmente um assassino profissional. O combinado é que me mate neste banco onde estou. Basta um comando acordado. Tudo que preciso fazer é saudar aquele que me ver aqui.“Você está no ponto hoje”.

Ême

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Nunca escutei que dava azar, mas fato que o “m” é a décima-terceira letra do alfabeto, com toda carga que isso traz. Dizem que nos hieróglifos egípcios representava uma coruja, que não é bem uma ave de mau agouro mas nunca me pareceu um bicho que dá sorte.

Sempre achei o Ême uma das letra mais super-heróicas que existem. De Mega Man a Megamente, Mulher-Maravilha e outros heróis. Em numeração romana, a letra representa o mil, o que sempre me lembrou o Homem-Múltiplo daquele desenho bacana: Os Impossíveis.

O mil de números também esteve sempre a frente do “mais”, de somar a Mais do Mesmo. Ou do “mas”, de adversativa. Com todos os senões.

Robin Willians e a nossa infância

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Não tem ninguém que não se comova com a morte de Robin Willians, um cara que todo mundo curtia ou, no mínimo, achava simpático. Até mesmo os resenhistas de filmes iranianos tinham uma ou duas palavras boas para falar dele.

Tenho Robin Willians como alguém que durante umas duas décadas deixou de lado filmes dramáticos, como o ótimo Tempo de Despertar, e partiu para as comédias-família. Era um desejo do ator fazer trabalhos que os pequenos filhos pudessem assistir. O crescimento das crianças culminou com o seu retorno ao drama nos ótimos Retratos de Uma Obsessão e Insônia, que também serviu para Al Pacino dar um oi.

No meio desse caminho todo, Robin Willians recitou Oh Captain! My Captain!, muito antes de saber direito quem era Walt Whitman. Sociedade dos Poetas Mortos não era exatamente um filme infantil, mas até hoje tenho dificuldades em chama-lo de adulto mesmo (atenção: se não viu o filme, pula esse parágrafo) com um suicídio no meio. Se tornou meu filme favorito por toda a vida.

Era um passatempo procurar onde estava cada um dos adolescentes da história. E no meio disso tudo sempre estava lá Robin Willians vestido de babá, como Peter Pan e por aí vai. Tinha aquele papo de que alguns filmes você não deveria rever para não se decepcionar com eles. E fiz isso com Sociedade dos Poetas Mortos. É impossível o filme ser tão bom quanto achava na minha infância e pré-adolescência. É melhor ficar com o que tenho.

No meio das notícias tristes sobre a partida do ator, passei horas relembrando o efeito de Willians sobre a época que fui criança. Ele foi um Peter Pan que cresceu, um pai que se vestia de babá para ficar perto dos filhos e até mesmo uma criança que envelhecia quatro anos a cada um (o bonitinho Jack, dirigido por Francis Ford Coppola).

Nesse tempo todo esteve comigo a cada fase da minha vida. E partiu sem que pudesse me despedir direito. Ao menos, a gente ainda pode subir numa mesa, gritar “Oh Captain! My Captain!” e imaginar Robin Willians fechando a porta. E feliz por ter feito tantos alunos saberem a hora de bagunçar qualquer aula chata por si mesmos. Carpe Diem procês.