Mês: Julho 2014

Post spam

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E conta que dia desses o Spam se revoltou com o uso indevido da marca e processou todo mundo. Empresas do mundo mobile tiveram que dar satisfação sobre SMS, políticos que escaparam de qualquer CPI tiveram que prestar satisfações sobre uso indevido do email alheio e até menores de idade penaram por causa das famigeradas correntes. “E como eu ia saber que não ia vir um bode me bater?”.

A imprensa inteira se movimentou e a coisa chegou até o Tribunal de Haia. Colunistas de direita alegavam a primazia do usuário em mandar o Spam como “uma válvula de escape para o sufoco imposto pelo comunismo iminente”. Do outro lado, articulistas de esquerda lembravam dos direitos do Spam moleque, do Spam de várzea e toda sua tradição de patinho feio da web.

E chegou o grande dia. Milhões de acusados no banco dos réus, o juiz mais consagrado do tribunal internacional estava presente e não havia emissora que ali não estivesse. Apenas o Spam não foi. Ao invés disso, mandou um email para o escrivão. A mensagem dizia. “É brinks. Abs. PS: Passe para todos os seus amigos ou…”

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Os sete

“Ajoelhou, tem que rezar” – dizia aquele que chamavam de “O Mestre” enquanto empurrava sua cabeça em direção ao seu sexo. Ela hesitava lhe dar prazer pelo asco da situação testemunhada pelas criaturas restantes que aguardavam sua vez. “Não adianta reclamar de cansaço” avisara de manhã o que espirrava enquanto limpava o catarro com a manga suja pelo trabalho nas minas.

O povo costuma dizer que a realeza tem vida fácil. A sua foi repleta de mais trabalhos e humilhações que a maioria dos escravos. Escapou da morte pela piedade inexplicável de um caçador apenas para cair em uma floresta onde não sabia como sobreviver. Os sete lhe ofereceram ajuda.

Ela devia saber. Devia saber quando viu o mais sisudo alisar a barba e esboçar um sorriso. Na ocasião, até mesmo o mais tímido não conteve sua excitação e o sonado nunca esteve tão desperto. Era hóspede e prisioneira de seus anfitriões e carcereiros. Era sua escrava, seu objeto e sua empregada.

Trabalhava exaustivamente durante o dia e sofria abusos pela noite. Às vezes permitiam que os estupros acabassem no segundo ou terceiro, mas geralmente tinha que se deitar com cada um enquanto os outros viam. Apenas um não participava. Era o único que não falava também. E ouvia toda sorte de ofensas e ironias de seus companheiros por se omitir das maldades.

Se aquilo era possível, Branca via nele um amigo. O único que não lhe feria a alma.

Não compreendeu quando ele próprio mandou que fosse atender aos desejos dos companheiros enquanto faria o jantar. Ela sabia que caprichar na comida era uma das poucas desculpas aceitáveis para diminuir seu sofrimento. Naquela noite os estupros duraram mais. Dormiu com fome e esgotada. Talvez morrer fosse uma saída.

E era. Mas não como pensava. Na manhã seguinte, não foi acordada por mocas ou pontapés. Acordou descansada, ainda que com dores. Todos os seis ainda dormiam, apenas Dunga estava de pé e com uma imensa mala pronta. Andou por entre as pequenas camas. Os olhos abertos, esbugalhados e a pele esbranquiçada. Envenenados.

Deveria pular de alegrias e fugir, mas chorou. Pensou na rainha, nos perigos do mundo lá fora e em como tudo poderia piorar. Os estupros pareciam tormentos aceitáveis e o trabalho estafante um paraíso pela sobrevivência. Sua psique jamais seria a mesma.

Foi o anão remanescente que a tranquilizou. Enxugou suas lágrimas e sorriu enquanto juntava as camas e mostrava que agora ela não precisaria dormir no chão.

Ela se apaixonou pela sua gentileza, tão inédita em sua vida. Ele tinha a mãe que sentia falta. Depositaram um no outro as histórias que não viveram e jamais sentiram solidão novamente. Foi o bastante.

Éle

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O “éle” sempre me lembrou o “elle”, pronome francês para designar o sexo feminino (se me lembro bem das aulas da tia Elizabeth, o “il” designa os meninos). A pronúncia é parecida, mas a grafia muda por um acento e outro “l”. Entretanto, no português o “l” raramente anda acompanhado de outro irmão gêmeo.

É Isabella ou Isabelle e olhe lá. Nossos Hermanos montam uns nomes lindos com “l” maiúsculo como Cevallos ou até o equino Cavallo, que era nome de ministro argentino. Por aqui somos fãs de alguma economia com Laís, Leonardo e até um ou outro Lodofredo, que é um ótimo nome para esquetes de humor, ou Lindomar, o sub-zero brasileiro imortalizado pelo Orkut.

Você pode até achar uma forçada de barra a teoria dos nomes bonitos terem dois “l”, mas repara que esta é a décima-primeira letra do alfabeto. Estão lá os dois “1” e os dois “l”. E a gente aqui se virando com um só para juntar lé com cré e chegar lá. O éle é uma lenda mesmo.

Histórias

Há histórias que só acabam depois da mensagem dos patrocinadores. Outras precisam que a tiragem do gibi se esgote e as mais tradicionais terminam com um “fim” na sua última página. Todas estão no mesmo limbo de contos que a sociedade aprendeu a assistir, ler e ouvir. Mas nem sempre foi assim.

Houve um tempo em que a função de cada história era bem maior. As histórias explicavam o mundo. Algumas tornavam a realidade mais suportável, mas outras não eram contadas para entreter ou dar esperança. Existiam para serem temidas.

No mundo de hoje, todos consomem as histórias que entretém. Nos acostumamos até a ver algumas que assustam, mas não tememos porque cedo ou tarde elas acabam. Tenho medo pelo dia em que ouviremos de novo as velhas histórias. Aquelas que existem para causar medo.