Mês: Maio 2014

Tema livre

Não tem nada mais desesperador em qualquer tipo de concurso ou avaliação de texto que o tema seja… Livre. O que pode parecer libertador para a maioria é sufocante para o cronista. Você pode escrever sobre o Stephen Hawking, a fase do Chicago Bulls ou a influência do Lula nas eleições. Este é quente.

Nas fases de vestibular, o tema é livre é o sonho que nunca encontramos na prova da USP ou UFRJ. A liberdade de não precisar escrever introdução-desenvolvimento-fim no modelo capcioso de vestibulando sempre se restringe a um tema da atualidade que você já deve ter escrito dúzias de vezes no Facebook. A vantagem é focar em um assunto e fazer o seu melhor texto a respeito.

Concursos que não delimitam o tema dos textos sempre me deixam curioso. Se eu escrever sobre futebol vou ser julgado como em comparação ao sujeito que escrever sobre Monet? E será que é melhor escrever sobre o Lula? Honestamente, eu sinto mais saudades do Jordan…

O primeiro beijo

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Certeza. Tinha certeza que o dia ia acabar bem após as filmagens da novela à tarde. Tudo acabou quando sua mãe jogou água no seu rosto o fazendo perceber que misteriosamente era criança de novo. Não tinha seu apartamento, seu despertador e, felizmente, aquela modelo esquisitona da noite passada.

– Marcos, levante já! Você vai se atrasar para o comercial…

Comerciais. De novo ele estava filmando comerciais! Como odiava aquele aspecto da profissão de ator que seguia desde cedo e nem pensava em desistir por pura falta de saber o que fazer. Mamãe não deixava. Lembrava com raiva das troças que levava dos colegas na escola sempre repetindo seu bordão ou seu gesto de forma ridícula. Zombavam e insistiam naquele comentário: “até eu sei fazer isso! Sou melhor que você!”

Sem tempo para entender o que houve obedeceu a mãe. Pensou em argumentar, mas afinal: mamãe não deixa. Pensou nos coleguinhas zombeteiros e em que diabos teria acontecido. Enfim, estava atrasado!

O caminho para o estúdio foi acompanhado do bom e velho café da manhã no carro. Seu corpo de menino parecia acostumado a digerir o croissant entre os buracos e lombadas da estrada. As mãos ágeis não permitiam que o suco de laranja manchasse a camisa. Mamãe não deixa.

Quando chegou no estúdio e viu o cenário teve um pressentimento estranho. Era aquele comercial de cereais! Não que fosse um marco em sua vida profissional ou que representasse algo para o futuro galã de novela. Mas foi naquele cenário que se apaixonou pela primeira vez.

A paixão era platônica. Mariazinha nunca ouviu seu pedido de namoro ou sua Ode A Menina do Cereal. Mamãe não deixa.

– Anda menino! Se aprume! Hora de trabalhar! Você acha que vai ser alguém na vida olhando arregalado pros cantos? Endireira a coluna! Ande direito! Altivez! Altivez, menino!

A equipe de filmagem preparava o cenário e, um segundo antes de acontecer, ele lembrou mais um detalhe daquele dia. Um dos spots entrou em curto ao ser ligado e sua mãe desmaiou com o susto. Quando ocorreu da primeira vez, ficara paralizado de medo. Mas agora tinha dez anos no corpo, mas quase o triplo de memórias. Era ali e agora. Não tinha outra chance. Mamãe não deixaria…

– Oi.
– Oi, eu sou a Mariazinha.
– Eu sei.
– Claro! Você é o menino da escova de dentes! Nossa, você está diferente!
– É que passam muito pó de arroz em mim.
– Ah…
– Olha…Você quer namorar comigo?
– Claro!
– Puxa…
– Puxa…
– Me dá um beijo?
– Não posso.
– Ué…
– Papai não deixa.

Descobriu ali que nunca quis ser ator de verdade. Talvez houvesse, de fato, tempo para estudar canto lírico. A opera lhe aguardava…

Efe

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Com exceção dos casos atípicos, você começa a ter trabalho em contar as letras do alfabeto com a letra “F”. Até o “E”, você resolve tudo com uma mão, mas agora vem a sexta letra e você vai entendendo que a brincadeira é mais complicada do que parecia. E é mesmo mais difícil, mas também meio fácil e meio falaciosa.

O Efe não é só a sexta letra, mas também a letra mais invocada de todos os duplos sentidos iniciando o sonoro foda-se. No princípio de todos os problemas, o F é o verbo do vai se foder definitivo para cada drama que não queremos resolver, não devemos resolver ou não deveríamos.

Você tem que encher a boca para começar a falar qualquer coisa com “f”, mas ao mesmo tempo fechada. É de um jeito que nem o “th” ou “ph”, fonemas marromeno correspondente do inglês, parece. Uma letra contida, mas bem original. Como todas as suas irmãs.

É

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Parecendo uma mesa de três pernas virada em um ângulo de 90 graus, o “e” sempre vai ser o que conecta o penúltimo com o último. Na sala de aula, tem professor que dá essa inicial ao último nome da classe (que segue sendo o último mesmo como a quinta letra do alfabeto).

Os acentos deixaram a vogal mais interessante. Desde a onomatopeia “ê” até o verbo ser. O “e” é uma letra de peito aberto, fala aguda e cheia de significado. Sua versão minúscula é mais cadeira que mesa, mas tem a mesma beleza. É lindo. E a gente fica por aqui hoje.

Eu na Trasgo

Meu conto Viral foi aceito pela revista Trasgo para fazer parte da próxima edição. Se trata de uma história sobre uma espécie de vírus ou simplesmente uma ideia viral. Mais do que isso, vocês vão ter que esperar a nova edição.

Obviamente, vou avisar por aqui, no Facebook e lá no twitter quando a novidade for para o ar.

Medos e esperanças

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Em 2002, o mundo artístico crucificou a atriz Regina Duarte ao falar em medo para defender a permanência do PSDB no poder, com o então candidato José Serra. A reação instantânea tinha o seguinte princípio: era um absurdo impedir a alternância no poder com o discurso do medo da mudança.

Em a Alma Imoral, de Nilton Bonder, o rabino explica que a tradição é a guardiã do passado. Assim como o conservadorismo se coloca como defensor de nossas tradições para contrapor a necessidade de mudanças que toda sociedade tem. Bonder explica que a traição seria a guardiã do futuro, a garantia de que vamos mudar. Judeus só existem até hoje porque mudaram o dogma de que apenas filhos de pais judeus eram judeus após a aniquilação em massa de seus homens e estupro de suas mulheres. Se passou a considerar que o filho de mães judias seria judeu. E assim o judaísmo persiste milênios depois enquanto outras religiões estão quase extintas.

Por mais que tudo o que construímos seja digno de proteção, a mudança é vital para a vida. E para qualquer País. Nem mesmo na Noruega você encontrará alguém que ache que as coisas são boas e nada pode melhorar. Talvez seja por isso que em política raramente o discurso do medo acaba em coisas boas. Serra perdeu as eleições para um Lula três vezes derrotado em eleições presidenciais.

Quando o PT usa o medo para defender suas conquistas não mostra apreço pelo que construiu. O discurso de medo reflete também o temor de quem discursa em perder. Mas as derrotas são normais na política, que está sempre mudando. É inútil querer impedir isso ao invés de garantir ao eleitor que pode atender seu desejo de mudança. O maior medo que quem vota tem é justamente o de perder a esperança.