Mês: Abril 2014

Instalação

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Houve o tempo em que ver teatro era como cinema. A poltrona, o palco e você assiste. Alguém desinibido teve a ideia de que a platéia também merece brilhar e inventou o teatro interativo. A grande vantagem disso foi dividir os espectadores de teatro que sabem do risco e os que compram lugar na primeira fila. “Dá pra ver de pertinho”. E contracenar direitinho também.

Tem a história do Caetano que foi ver uma peça e as atrizes levaram pro palco, despiram e tudo. Apareceram no Fantástico, o cantor recebeu elogios efusivos da então esposa e das companheiras de cena. Não lembro nem do nome do teatro, mas Cantor Tropicalista fica nu ao ver peça é uma manchete que qualquer produtor cultural respeita. Mais informações aqui (não, não tem fotos aí. Desculpa).

Teatro ainda é legal. Você até supera quem leva pipoca ou esquece o celular ligado sem cometer nenhum assassinato (quase o tempo todo). A falta de ar condicionado pega, mas olha… Ruim mesmo é ver peça ruim. De resto, se algum ator te pegar pela mão e levar ao palco grite “incêndio”. É a melhor chance de você escapar dessa. Merda pra você.

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O beabá sempre foi um jeito engraçado de começar um papo sobre o alfabeto, que todo mundo sabe que começa com A. Mas é o jeito do B dizer ao mundo que ele também tem seus desejos e necessidades como qualquer letra . Vai saber o que significa saber que você vai ser sempre o segundo lugar? Vice de novo.

O Bê é a letra dos vice-campeões. Não tem doutor que saiba o Abecedário dizendo que conhece o Bac, é sempre aBc… Miséria. Até Rubinho Barrichello já ganhou da sua letra A, mas o B nunca vai ter essa chance com todo charme que tem.

Charmoso porque o B é meio sedutor, parecendo sempre aquela moça de seios fartos vista de cima. Ou o derriére da gata da praia. Bunda, bico do seio, oBsceno. Ri melhor quem chega por último. Porque o B sempre vai chegar depois do primeiro mesmo. Sacanagem.

Sobre bananas e macacos

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Existe uma história antiga sobre skinheads na América do Sul que descobriram o endereço de contato de seus equivalentes europeus. Rapidamente enviaram uma carta com seus feitos nos trópicos. Um mês depois receberam uma resposta. “Morram Sul-Americanos”. É quase hilário.

O “quase” fica por conta da falta de graça de tudo que envolve o racismo. O racista é um sujeito tão medonho que não consegue olhar para além dos próprios limites estreitos. E virou consenso entre todos que o racismo é absoluto e, regularmente, velado. Vítimas e algozes se confundem no cotidiano em ações simples: desde achar que a mulher mais bonita do mundo só foi eleita assim por ser negra até atravessar a rua de acordo com a cor do pedestre que vem vindo. É uma vigília constante em nós mesmos para não incorrer nesses erros.

Quando Daniel Alves come uma banana que arremessam no campo, ele não conseguiu ser unanimidade. O rapper Emicida não entendeu assim e criticou a brincadeira. Da mesma forma, muitos, vítima ou não do preconceito, manifestaram medo que o protesto funcionasse às avessas. Que faça as pessoas que arremessam bananas realmente verem símios no lugar de homens. Nada mais errado.

Ao comer a fruta, o lateral-direito dá a fruta sua função original. É uma nova interpretação que tira da banana seu símbolo de opressão e transforma em… Banana. Daniel Alves não chorou, protestou ou perdeu a linha. Simplesmente ignorou o ato e, de forma bem-humorada, disse: “sim, sou um macaco assim como você”.

A ideia por trás da ação e de toda repercussão em redes sociais não identifica as vítimas do preconceito como animais. E sim que tanto vítimas quanto algozes são tão macacos quanto o outro. É diferente.

Por isso, da próxima vez que alguém imitar um macaco ou jogar uma banana perto de você, não importa a sua cor. Imite um macaco, coma a fruta e deixe claro para o racista que a sociedade é um espelho dele também. E então todos nós seremos mais macacos. E mais humanos.

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Yes, queremos bananas

Um h0mem roubado nunca se engana

O melhor remédio

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Remédio bom é pra melhorar, não piorar é pouco. Água não faz mal, mas nem em excesso preenche todo buraco que tem. Pode parar de noite e ler bula pra curar insônia, mas não tem floral pra esquecer. Não tem rivotril que alivie o travesseiro.

Prevenir é melhor pra remediar, mas remediar/remendar quem? Cada remendo que te fazem, não tem relaxante muscular pra fazer a dor da costura passar. E quem disse que tem que passar, meu Deus? Ou operar.

Tua tosse passa pro inalador. Transtorno que transforma, a cada cor que você vê do nebulizador.

Não tem cura pra vida. Melhor remédio é tratamento.

Perturbador

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Perdi o sono noite dessas. Um dos pensamentos que me preocupava era de que a ideia de um texto que terminei no dia não era minha. Passei cerca de 30 minutos perturbado, tentando lembrar em que conversa, ou pior, texto alheio havia obtido aquela ideia. Era o plagiador com amnese.

Porém, fui eu mesmo que pensei no texto. A tranquilidade só surgiu quando me recordei do momento em que tive o insight para a crônica. E se não tivesse esse flashback? Seria culpado por escrever um post sem creditar o autor (que não lembrava) ou seria um inocente ignorante? Questões que o filme Amnésia desenvolve até o final.

Afinal, a culpa tem a ver com a ação ou com a intenção? Não ser o agente da ação é menos culposo que querer ser?

De qualquer jeito, bastava ao terminar o post dizer que não lembrava quem era o autor da idéia. “Se souberem, digam nos comentários, por favor”. Se sentir culpado pode ser algo muito bobo.

Socialistas fazem amor, Liberais fazem sexo

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Só quem foi de esquerda chora com filmes europeus e fica emocionado com Lucy in The Sky with Diamonds. “A única música sobre amor e mundo igualitário”, já diziam os marxistas da USP. Liberais curtem Rolling Stones e películas sobre zumbis. A turma de economia da PUC-Rio chegou a criar um cineclube chamado Malthus Dead, focado em filmes sobre mortos-vivos.

Comunistas são sensíveis. Mulheres se amarram nesses caras. Liberais são brutos e têm o pé frio. “Nasci assim, não é culpa minha”. Ninguém tem culpa de acreditar que o mundo é injusto mesmo ou de que o Estado tem que fazer alguma coisa sobre qualquer coisa. Mas fato é que as mulheres se amarram em um cara de esquerda. Repare que todo mundo tem uma tia que acha o Lula um galã. Exceto eu: tive duas assim.

Liberais se casam, socialistas se juntam. O comunismo acredita que cada perestroika vale a pena enquanto o Liberalismo quer privatizar tudo. Liberais são coxinha, socialistas são pastel. Todo mundo gosta mais de pastel do que coxinha. Não adianta. Toda menina quer ficar com esses caras de esquerda.

O texto acima é de humor e totalmente ficcional. Se você levou a sério, relaxe. É bem inferior ao artigo que o inspirou. Confira.

Ah…

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Essa é A letra em que tudo começa. O “A” é o início do alfabeto: o ovo antes da galinha. Ou o contrário. Tanto faz, o importante é que sempre teve um jeito de letra aberta e versátil. A interjeição “Aaaah”… em um tom moderado pode complementar desde a conclusão surreal (“ah, então é por isso que você atirou em mim?) ou o constrangimento evidente (“Ah, o seu marido também veio”).

Irritada, a vogal pode emplacar uma fúria desigual (“aaah, esmagar homenzinhos”) ou até um urro de dor. Primitivo, gutural. Cantores do bonde do heavy adoram essa letra.

Crianças também curtem desde que o mundo é mundo. Na minha creche cada “Aaah” era sucedido por um “mas que peninha, de galinha”. Nunca gostei da letra porque o “A” tinha jeito de matrona, de mãezona irritada com as pernas se estendendo ao dorso de uma italiana com as mãos na cintura, em um misto de super-heroína e matriarca esporrenta.

“Ai, ai, ai”… O alfabeto já começa meio irritado com o final disso que está longe…