Mês: Fevereiro 2014

Dos textos deletados

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Um texto deletado não tem comentários e nem gera likes no facebook. O texto que você apagou nunca será rankeado pelo google, jamais vai virar polêmica no Twitter e sepulta suas chances de aparecer na capa do G1 em alguma editoria classe-média-sofre da vida.

Deletar aquele post é jogar fora um tempo que não volta mais. Você desperdiçou aquilo. E como tirar aquela palavra inconveniente ou engolir a vírgula que separa o verbo do sujeito, pode ser absolutamente desnecessário. A sentença que você destruiu sobre o pensamento que não tem certeza vai te criar menos constrangimentos inexplicáveis.

A tecla deletar não é o fim. Apenas um novo começo para aquela ideia. Pense melhor e tente de novo: a página em branco vai estar aqui esperando você.

O que estou escrevendo: O túnel

ImageAndo lendo muito o arco de HQs de Lúcifer, escrito por Mike Carey, daqueles caras que nasceram para provar que a linha vertigo não vai morrer com Neil Gaiman. Tenho um apreço enorme por mitologia e folclore – aliás, se alguém conhecer um mestrado ou pós nesse campo aqui no Rio de Janeiro, favor avisar – e o primeiro arco que o autor escreveu tem muito disso.

Paralelamente, outra leitura de cabeceira minha é América Mítica, livro que encontrei por acaso em um desses camelôs que vendem livros na rua. É escrito por Rosana Rios, que já virou meu alvo de futuras leituras em breve. Basicamente, é uma coletânea de mitos de povos nativos e pré-colombianos com histórias fantásticas, que por uma série de questões (indesculpáveis) não aprendemos nas escolas. Recomendo muito.

As duas leituras coincidiram no mito de criação dos Jicarilla (leia a segunda história deste link. Texto em inglês) e achei muito legal a premissa que Carey demonstrou. Basicamente, enquanto o cristianismo conta as coisas em uma cronologia (primeiro as trevas, depois a luz, etc.) os Jicarilla, que são uma tribo dos apaches, narram como uma jornada. Um caminho dos homens saindo da escuridão para as trevas. “É a coisa da qual o parto é uma metáfora”, explica Lúcifer (sim, o diabão mesmo).

Partindo desse princípio e lendo o capítulo 2 do livro de Rosana, estou escrevendo um conto que:

– Explique esse mito de forma narrativa.

– Seja uma história fechada em si mesma, mas que possa servir para iniciar uma(s) outra(s) história(s).

– Respeite o conceito da história original, mas sem ficar totalmente preso à ela.

O terceiro ponto talvez seja o mais polêmico então vou explicar. Não tenho a pretensão de melhorar uma narrativa milenar, mas simplesmente de incluir coisas que entendo melhor. Se algum navajo ou estudioso das tribos norte-americanas se sentir ofendido, basta indicar uma leitura complementar para que repita a experiência outras vezes.

E quem quiser ler outros contos meus, basta clicar aqui.

Luz Vermelha

Sabe quando o ator vai fazer um teste e interpreta um monólogo sozinho no palco? Entrevistas de emprego são bem mais constrangedoras na hora do “a gente entra em contato”. Para atores é só a luzinha vermelha que se acende em um sinal de que ele pode deixar o palco e sair do personagem, de volta para sua vida.

Todos nós temos nossas luzes vermelhas. Nosso momento de sair dos nossos sonhos e voltar para a dura realidade em que não nos tornamos um jogador de futebol, não somos ricos, não nos declaramos, não conseguimos aquela vaga, não conquistamos aquele objeto de desejo, etc. Obrigado pelo seu sonho, nós retornaremos se você for um sortudo.

Mas temos mesmo sorte quando percebemos que a luz vermelha não é o fim do sonho. Ela está lá apenas pra dizer que alguém só deu um primeiro passo ou ultrapassou o primeiro obstáculo. Em todos os nossos sonhos temos que compor uma enorme mise-en-scéne interna entre nossos desejos, nossas obrigações e, merda pra você, nossa determinação. Agradeça e se despeça quando a lâmpada acender, mas não deixe esse palco sair do seu coração. O show tem que continuar.

Do tempo que se amarrava pessoas em um poste

ImageSempre tenho o instinto de tentar procurar algo que ninguém comenta quando uma notícia domina as timelines alheias. Do caso bizarro e inadmissível da vítima  agredida e presa a um poste me chamou atenção o nome de quem denunciou: Yvonne Bezerra de Mello. Ela é artista plástica e ajudava as crianças na Candelária chacinadas anos atrás. Por sua luta com gente esquecida pela sociedade, foi retratada em um documentário de uma cineasta alemã intitulado Guerreira da Luz.

Não é de graça. Yvonne e sua luz lutaram por menores chacinados em tempos que até considerávamos mais bárbaros do que hoje. Muito tempo depois, precisa lidar com críticas dos reacionários em desenvolvimento por ter ajudado um ser humano ferido e preso sem autorização do Estado. Choca. “Quando divulguei as fotos na internet, muita gente veio dizer que ele é ladrão, que tinha que ser punido mesmo. Os furtos na região (do Flamengo) aumentaram muito, eu sei disso, mas não sei quem é o rapaz. Se houver cometido algum crime, quem deve prender é a polícia.”, disse. Choca mesmo. Embora alguns prefiram aplaudir.

Desses tempos em que se amarra pessoas em poste para os aplausos da Santa Inquisição 2.0 fica a perseverança de Yvonne, há décadas sem desistir do ser humano. É evidência  de que ainda resta alguma civilização em nós mesmo com a turba surda exigindo a legitimação da lei do Capitão Nascimento. Quem será o próximo a voltar para o saco? Ou para o poste?

Se redes sociais permitem que você leia e siga quem quiser, vou optar por prestar mais atenção no que ela diz ao invés do que alguns amigos meus falam. Desculpa, amigão, mas sua opinião é digna de qualquer membro do PFI (Partido Fascista da Internet). E que os marginais que prenderam o sujeito ao poste sejam severamente punidos. Assim como a vítima deve ser punida por qualquer crime que tenha ou venha a cometer. Mas pelo Estado e não por milícias.

Até lá, a gente tenta não desistir do ser humano também.

PS: Yvonne comanda o projeto Uerê, que ajuda crianças e comunidades carentes. A ONG aceita doações e trabalho de voluntários.