Mês: Janeiro 2014

Das dietas

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Emagrecer é a prova viva de que na prática a  teoria é outra. Não tem coisa mais simples: consuma menos calorias do que gasta e o peso diminui. Agora, vai tentar. Depois dos trinta anos a dificuldade de brigar com a balança cresce em progressão geométrica embora o formato da barriga não seja bem um polígono.

Aos 34 anos já entendi que não dá mais pra descer e jogar pelada todo dia que a barriga se vai. Na maioria das vezes o joelho se faz de ofendido e manda um alô para você nada agradável. O jeito é começar fechando a boca ou fazer algo que os entendidos chamam de acelerar o metabolismo. Significa comer mais vezes em pequenas porções. Ou simplesmente passar fome mais vezes no dia.
Vou percebendo que a única vantagem do tempo para perder peso é a noção mais clara do que fazer ou não quando entra em uma dieta. A primeira dica é nunca admitir. “Nossa, você emagreceu”, diga que foi gripe. “Me passa a sua dieta”. Diga que não está fazendo nada. Negue.

Se alguém descobrir sua vida acabou. Rapidamente ouvirá a última dica, todo mundo automaticamente se converte em um vigilante de peso pessoal. “Mas você vai comer sorvete mesmo ?”, “Como assim coca zero não engorda?” e “berinjela engorda, aponta estudo”.  E nem dá para se estressar muito com isso. Raiva engorda.

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Top 30 anos não tem playlist que baste

A playlist de um trintão é tão confusa quanto a América Central. Alguns de nós dançaram lambadaê e dançaram lambada lá (lá onde, ê… Beto Barbosa?) e tem aqueles que achavam que melhor era ser criança com o Trem da Alegria. Achavam tanto que vão no show do Luciano até hoje. Pai, afasta de mim esse cálice.

Chico Buarque sim porque os de trinta anos não têm essa de só ouvir a música a partir dos anos 80. Crescemos com o vinil, amadurecemos com o CD e tomamos gosto pelo MP3. Tem quem só use um ou todos, mas trintão bom é aquele que conhece a música que não tem idade pra conhecer. Todo trintencentista que se respeite tem uma lista de shows que só não foi porque não era nascido ou a mãe não deixava. E mãe é mãe. Paca é paca (desculpem, meninas).

Todo cara de trinta anos teve uma fase Legião Urbana. Os piores são os que renegam a fase como tem adulto que parece que nunca foi criança e achava a Madonna gostosa pra caramba porque nessa idade não podia falar palavrão caralho. Você também achava o Michael Jackson o cara mais incrível do mundo, dançou Step by Step em algum Ray Fay ou festa julina da vida e tinha certeza que o Guns ia durar pra sempre. Ou pior, apostou no Nirvana.

O cara de trinta e poucos anos não reclama muito do Jorge Vercilo porque a gente sabe o que é ligar a rádio e ter que escolher entre o É o Tcham, Gerasamba ou Soweto. Tudo bem pra você se a gente ouve Ana Carolina sem parar? Dureza era a Rosana Canibal que comia deusas all night long nas estações. Não é que a gente se contenta com pouco. Sabemos como somos felizes apesar do Michel Teló.

Apesar de tudo, o cara de trinta ainda tem muita esperança. Esperança que o B-52 ou a Cindy Lauper voltem ao Brasil algum dia. E não vale só ir em São Paulo.  Esperança que o Elvis continue na cova, mas que o Freddie Mercury reapareça vivinho da silva. Ou The Smiths. E que o MC Bob Run volte e ensine ao Benny como se faz. Tá escrito.

Uns trinta anos atrás

Caverna do Dragão - A Uni não era o demônio!

Todo mundo já deve ter recebido uma corrente de email que lista todas as coisas que as crianças tinham nos anos 80. O texto sempre se encerrava com uma mensagem edificante de que os trintões fomos os últimos a ter uma infância feliz. Cuméquié ?

Pergunte aos trintencistas da atualidade quantos cabelos não perderam tentando assistir o último capítulo de Caverna do Dragão que jamais existiu. Aquele em que a Uni era um diabo e tudo mais. Só o fato de alguém ter inventado uma história dessas já prova que a nossa felicidade infantil é mais superestimada do que a programação da TV da época. E os Smurfs, derrotaram o Gargamel de vez? O He-Man conseguiu vencer o Esqueleto antes de ficar branco*?

A nossa infância não foi sem traumas. Já existiam todas as imposições masculinas nos programas infantis com apresentadoras usando roupas que não queríamos ver em nossas irmãs. E a gente ainda tinha que dizer pra nossa mãe que não tinha problema. Era a antecipação de todos os conflitos que o time dos casados viria a passar, mas só que ninguém terminou casado com a Xuxa.

E ainda tinha uma ameaça bem pior que divórcio ou brigar com a mamãe:  mudar o canal pra ver o Bozo. SBT era só em caso de conferir se alguém passava aquele trote para o programa. O do tomate cru. Porque a gente era inocente, né?

Crianças que agora completam trinta anos passaram a vida inteira brincando de todos os desenhos animados que viam na TV. Agora que nos tornamos adultos a gente não faz mais essas coisas infantis. Vamos ao cinema ver tudo isso com pipoca e o (a) respectivo(a). “Você não tá muito velho pra ver filme de robozinho não ?” Velho nada. Depois a gente ainda vai no bar discutir se o Optimus Prime vencia ou não o Predador na porrada. Filosofia pura.

Diga a qualquer fã de Ben 10 que bom mesmo era o alienígena que cuidava do Benji. Essas crianças que curtem Max Steel não sabem como eram os perigos do He-Man, que enfrentava o Esqueleto, tinha uma irmã em outra dimensão e não conseguia ter um boneco que fosse articulado decentemente. E ainda virou sueco em um desenho que ninguém mais lembra. Só quem tem trinta anos.

Essas coisas aqui e ali foram criando uma frustração nos trintões de hoje? Bom, nós não vimos o Hank levar a Sheila para o parque como adolescentes normais. Os terroristas do Cobra nunca vão presos e até hoje ninguém entende muito bem porque o Seu Madruga não terminou com a Dona Clotilde. E o que houve com o mascote da Punky na série da TV, aquele bichinho que voava e fazoa magia com as orelhas? Será que a Vicky cresceu e virou uma mulher-robô?

Mas pergunte aos jovens de vinte e poucos e eles vão ter os seus dramas da cultura pop também. Toda criança teve.

Temos trinta anos e já devíamos saber que nossa infância não foi especial. Bom, talvez tenhamos sido as únicos crianças que deram um sentido ao pogobol. Não é pouco.  E quer saber? Iria fácil em um filme do Caverna do Dragão só para ver a Diana de biquini…

*Branco e loiro. E só falam no Michael Jackson foi injustiçado…

O Homem de Trinta Anos

Honoré de Balzac - autor de
O balzaquiano é um forte. Começa superando o fato de que “balzaquiano” é uma apropriação indevida de balzaquiana, termo cunhado exclusivamente para o sexo feminino a partir do sobrenome de Honoré de Balzac, autor de “A Mulher de Trinta Anos” (imagem). Talvez mais do que forte, os balzaquianos sejamos todos um pouco sem vergonha também.

Não é sem motivo. Ser desavergonhado permite aos trintões seguirmos descolados mesmo com menos cabelo ou mais barriga diante da lembrança ainda próxima de nossa aparência de vinte e poucos anos. Tem aqueles homens de trinta, verdadeiros traidores da sociedade, que melhoram com a passagem dos anos. Perdem peso, tiram o aparelho , vão para a academia… Mas um trintão de respeito jamais tentará ser tão jovem quanto aos vinte (até porque isso a gente deixa para quando completarmos quarenta).

Trinta e poucos anos é uma idade belíssima hoje em dia. A gente não lembra bem do Paolo Rossi, mas tem direitinho na cabeça a Copa de 94 e a de 2002. Se os mais velhos têm bastante lembrança ruim para esquecer, nosso papo com os mais jovens tem muito mais história do que mesa de bar. “Fenômeno era o baixinho. O Romário era mais craque que o Ronaldo!” , “Cafu coisa nenhuma. Lateral tem que cruzar que nem o Jorginho fazia” e por aí vai…

Se o objetivo for conquistar alguma vintona intelectual a coisa melhora. Só os trintões conseguem explicar o que era cruzeiro, cruzado novo e fingir que ainda lembram o que veio primeiro sem parecer ridículo diante das mais jovens. O problema é se com trinta anos você quiser conquistar uma moça da mesma idade. Periga ela ficar pasma de você não lembrar quando caiu o Muro de Berlim e que o show que você gostaria de ir se tivesse uma máquina do tempo não seria o Rock in Rio de 1985. E não vale usar o Google: você ainda está muito novo pra isso.

Trinta anos. Rock in Rio, Diretas Já, AIDS – e um monte de gente boa que ela levou -, funk, pagode e axé. Um homem de trinta anos nunca vai admitir, mas lembra bem o que era a lambada também. Dizem que alguns até dançaram! Fortes e um pouco desavergonhados, sem dúvida.

Somos trintões sim. Com menos sabedoria que aqueles presunçosos dos 40 que acham que a nossa vida ainda não começou, mas com um tiquinho a mais de ousadia. Ou com menos energia que esses garotos de vinte, que mal saíram de suas fraldas, mas ganhamos na paciência. Ainda sopraremos muitas velas.

Quero ser Belchior Fernandes

ImageO que houve? Pode ser uma ideia tosca de um arquivista frustrado por não conseguir encontrar um verdadeiro amor que lhe ame. Tenha encontrado a sala mística de um andar obscuro que o leve à dominar a mente de um artista tal. Ao invés de John Malkovich, Belchior Fernandes. Mesma grandeza artística, mas muito mais cabelo.

Pode ser uma crise de depressão por sucesso, culpa por ser muito mais conhecido do que qualquer irmão ou ser maior que o pai. Culpa por ser muito maior artista do que homem, com filhos desgarrados e devendo dinheiro e amor. Não há música que resolva um coração deprê.

Pode ser o canto da sereia. Ninguém dá ouvidos aos amigos quando está apaixonado. O encontro de utopias sempre torna alguém mais suscetível a pedidos doidos. E quem pode duvidar da felicidade de um grande amor que faz você praticar o desapego?

Seja como for, quero ser Belchior só para poder entender tudo isso. Mas a verdade é que isso não é da conta de ninguém.

Todos os primeiros beijos

Primeiro beijo do super-herói

Cada fase da vida tem um primeiro beijo diferente. O primeiro beijo da mamãe, ainda no parto. Formando um elo de amor para o resto da vida. Amor de mãe é muito mais forte que primeiro beijo. Você não vai amar a mulher que beijar seus lábios primeiro pelo resto da vida, mas talvez nunca mais esqueça dela. E certamente não lembra do beijinho que sua mãe te deu logo que te viu, mas vai amá-la pra sempre.

First kiss maternal: o mais forte que existe. Só pode perder para o correspondente paternal. Muito homem vai beijar outros homens por fraternidade. Mais ainda por libido, desejo e amor. Mas o beijo do pai é tipo aperto de mão entre amigos: coisa de homem. Papai ama você.

E tem o primeiro beijo de língua. Sortudos têm tudo junto: o de língua e o fim da boca virgem. Mas para a maioria primeiro é o estalinho com as primas ou amiguinhas da creche, depois a exploração às cegas da língua da(o) companheira(o). O beijo lascivo, nada inocente… Dali em diante, só o sexo vai ser novidade, mas a língua sempre vai ser bom.

Tem o primeiro beijo sem graça. O do casamento morno, do namoro em fim de expediente, da relação estagnada. É tão esquecível que você nem sente. Um dia acorda e esqueceu como eram os outros beijos. Tem casal que acorda um dia e resolve relembrar como era. Tem casal que se separa. E tem os piores que resolvem relembrar fora do casamento. Beijar vira 100% safadeza, traição, pecado.

Cem por cento porque todo beijo é meio traição, 50% safadeza e metade pecado. Todo beijo é de olhos bem fechados. O bom beijo não é só o de língua, mas o que acaba em dois sorrisos. E quando você abre os olhos sabe que pode beijar de novo. Como se fosse o primeiro.

Ano novo, vida velha

Feliz 2013... Digo, 2014!

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Como os mais chegados e menos afortunados sabem, faço aniversário no final de ano. Ali em um cantinho entre o Natal e o Ano Novo sopro as velinhas e supero os traumas de infância dos presentes bipolares (“é do Natal e de aniversário, tá bom Tiaguinho?”). Quando dá tempo junto todos os amigos que não conseguiram aproveitar o reveillón para viajar – falei exatamente em “menos afortunados” lá em cima – e consigo ouvir um “parabéns para você” digno de uma pessoa que faça aniversário em épocas menos competitivas. Só não dá mesmo é pra lembrar quantos anos tenho.

Não entendeu? É assim: toda vez que o ano passa, tem aquela zona morta da primeira semana de janeiro (ou primeiro mês, se você não tem muita pressa) em que a gente se confunde em qual ano estamos. Agora mesmo quem lê esse post já deve ter se confundindo com o finado 2013 ao invés de falar no recém-nascido há apenas três dias. Comigo a coisa é pior porque costumo esquecer a data e a nova idade (considere esse “nova” com uma interpretação bem elástica, tipo calendário de borracha) sem ter o alzheimer como justificativa (ainda não cheguei lá!) ou a bebida, já que sou abstêmio.

Ao invés de ter 34 anos em 2014 , acabo confuso se tenho 33 em 2013, 34 em 2013 ou 33 em 2014. Do mesmo jeito, perdoo sempre quem ainda fala no ano que já passou ao invés do presente como um ato falho pra lá de comum. Essa confusão entre o novo ano novo pode ser um jeito sutil do subconsciente nos ajudar a não envelhecer. A segurar um pouquinho o ano que passou e dar tempo de fazer tudo o que não fizemos. Aquela academia que você nunca conseguiu começar abre no dia 2, mas se falar que começou no fim do ano passado… Quem vai saber?

Feliz 2014. E lembre-se: a Copa América foi no ano passado e esse é o ano da Copa do Mundo. Não das Olimpíadas. A gente vai votar pra presidente e governador, não pra prefeito. E seja compreensivo com quem confunde essas datas. Amanhã ou no ano que vem pode ser você.